8.9.07

Festa da Amandinha

Ele chega em casa, trajando um terno e um chapéu com os dizeres "Feliz aniversário" junto a uma figura do ursinho Puff. Ela se arrumando para o trabalho.

Ela: César!
Ele: Lu...
Ela: Lu?
Ele: Luuuu-iza!
Ela: O que você tá fazendo em casa a essa hora?
Ele: Tava no aniversário da Amandinha.
Ela: Que Amandinha?
Ele: A festa... de Aniversário da Amandinha.
Ela: Quem é essa?
Ele: Tá tendo lá no play... ó... cheio de gente...
Ela: César...
Ele (bate a perna no canto da cama): Ai...
Ela: Meu Deus...
Ele: Luiizaaa... você sabia qui a Eliete do Bloco 2 casou com um gringo que nem a sua irmã?
Ela: Eliete? Amandinha?
Ele: É uma epidemia... só pode ser... ou tá.... tá é faltando mesmo é mulé... mulé de verdade "nas Oropa".
Ela: César, você está bêbado?
Ele: Hein?...
Ela: Você encheu a cara numa festa de criança?
Ele: Olha, em defesa da minha pessoa, a festa tava cheia de adultos, tá? E cheia de whisky...
Ela: Meu Deus, César... são duas horas da tarde... o que você... você não foi trabalhar?
Ele: Fui. Só que saí de lá.
Ela: Saiu?
Ele: Saí! Ó... cheguei na porta e... fui!
Ela: Você saiu da empresa?
Ele: Ô mulé, saí... acabei de dizê...
Ela (indignada): E por que você saiu, ô ôme?
Ele: Porque fizeram uma coisa lá que eu não gostei... não aprovei... fui contra...
Ela: E que coisa é essa?
Ele: Me despediram.
Ela: Ah, meu Deus.
Ele: Ó... a Dona Catarina me deu esse saquinho surpresa pra te dar.
Ela (pega o presente): ...
Ele: Eu já comi o seu babaloo, viu... depois você pega um chocolate do meu, se quiser.
Ela (fica olhando pra ele): ...
Ele: Não fica me olhando assim, não. Eu tô ótimo... não podia me acontecer algo melhor, agora.
Ela: ...
Ele: Quê?
Ela: Agora, César? Acha mesmo que é melhor pra gente agora?
Ele: Por que não?
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Eu vou trabalhar.
Ele: De novo?
Ela: São duas horas da tarde.
Ele: Hum... tem almoço em casa?
Ela (pegando uma pasta com documentos): Tem pizza... de ontem...
Ele: Urgh! Acho que vou descer no play e comer os brigadeiros da festa. Você sabia que a Amandinha já completou 8 anos?
Ela (saindo): Não diga?
Ele (saindo atrás dela): Tá cada vez mais esperta.
Ela (irônica): Ah, eu faço idéia.

25.8.07

Defeito Colateral

Ele sai do banheiro aos passos de zumbi. Ela com o computador no colo e vários papéis espalhados pela cama. Ele se joga na cama.

Ele: Ai, meu Deus.
Ela: César... devagar... cuidado... você deitou em cima dos protocolos assinados.
Ele: Quê?
Ela (tira o papel debaixo das costas dele): Esses papéis aqui.
Ele: Desculpe.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Você tá bem?
Ele: Hein?
Ela: Qui é que você tem?
Ele (com a mão na barriga): Ai... não sei.
Ela: Tá com dor de barriga?
Ele: Um-hum.
Ela: Quer um chá?
Ele (corre pro banheiro): Ai, caramba. O chá.
Ela: ...
Ele: ...
Quatro minutos depois.
Ele: Luiza.
Ela: Calma.
Ele:...
Ela (recolhe alguns papéis): ...
Ele (deita): Cacete... desculpe por ter amassado seus protocooooh meu Deus. (massageando a barriga)
Ela: Caramba, César. Que merda, hein.
Ele: Muita.
Ela: Quer algum medicamento?
Ele: Não.
Ela: Quer que eu faça um chá?
Ele (se levanta rápido): Chá, não, Luiza... Aí ó... (e sai correndo de novo pro banheiro)
Cinco minutos depois.
Ela: Melhorou?
Ele (senta delicadamente na cama): Por uns dois segundos.
Ela: Meu Deus, homem. O que você tanto comeu?
Ele: O que eu tanto bebi, você quer dizer, né.
Ela: Bebeu? Você por acaso andou bebendo?
Ele: Nossa, não viaja, filha. Me deixa.
Ela: Amor, isso não é normal.
Ele: Eu sei. Eu fiz uma estupidez.
Ela (joga ele da cama): Me conta agora.
Ele (corre pro banheiro): Ai, caralho.
Ela: ...
Três minutos depois.
Ele (grita do banheiro): Luiza, acabou o papel.
Ela: Se vira... quero saber direitinho com quem você andou bebendo.
Ele: Luizaaa, eu preciso de papel.
Ela: Não...não até você me explicar toda a história.
Ele: Amor, depois eu explico.
Ela: Agora, César Mariano.
Ele: Cacete, Luiza. Eu preciso de papel.
Ela: O papel acabou. Porque alguém ficou de passar no mercado, mas errou o caminho e foi pro bar encher a cara.
Ele (gritando em meio ao eco causado pela pressão): Ah,meu Deus... Luizaaa... me dá um protocolo.
Ela: Tá maluco?
Ele (abre a porta e fica com cabeça pra fora do banheiro): Me dá o protocolo. Eu preciso do protocoloooo!
Ela: Você tá sem juízo.
Ele: É tudo papel mesmo. Me dá!
Ela: Esses papéis são confidenciais. Documentos importantes para os processos de uma corporação.
Ele: Foda-se. Eu quero um.
Ela: Não antes de você me contar tuu...
Ele (interrompe): Porra,Luiza.Medá o protoclo ou eu voumelimpar na toalha de rosto.
Ela (levanta, com cara de nojo): ...
Ele: Andaaa...
Ela (entre os papéis): Toma. Foda-se... é tudo esquema de corrupção e prova de lavagem de dinheiro mesmo.
Dez minutos depois.
Ele (senta na cama): ...
Ela: E o protocolo?
Ele: Foi com a descarga e meio quilo de...
Ela: Tá bom, César.
Ele: ...
Ela: Melhorou?
Ele (se deita): Um pouco.
Ela: Hum.
Ele: Foi um chá.
Ela: ...
Ele: "O quê" eu bebi... não "com quem".
Ela: Um chá?
Ele: É... o Tato me indicou.
Ela: Quem é Tato?
Ele: O Tato, marido da Glorinha.
Ela: Glorinha?
Ele: Morador do 704.
Ela (faz cara de quem não entende): ...
Ele: Aquele bixeiro que você apelidou de "zé-ninguém".
Ela: Ah, tá.
Ele: Ele me falou de um chá medicinal de folhas de uma pinha dos campos de "sei-lá-das-quantas".
Ela: E você tomou?
Ele: Tomei.
Ela: Por quê? Qual o efeito desde chá além do desarranjo todo aí?
Ele: Parece que ele teve alguns problemas com a esposa pra engravidar e procurou alg...
Ela (emocionada): Você tomou o chá!
Ele: Tomei.
Ela: Você tomou esse chá por causa do nosso bebê?
Ele: Foi, meu amor.
Ela: Peraí. Você tomou o chá? Uma indicação de um "zé-ninguém" com quem você esbarrou na esquina ou no elevador?
Ele: Parecia ser milagroso.
Ela (emputecendo): E por causa dessa merda, eu perdi meu protocolo?
Ele: Não briga comigo. Eu tô sensível. Ai! Aí, ó....
Ela (joga todos os papéis em cima dele): Seu cagão irresponsável!
Ele (correndo pro banheiro): Peraí... Não joga, não...
Ela: Bunda fria!
Ele: ...
Ela: Eu não acredito nisso.
Ele (gritando): Luizaaaa... papel!
Ela sai do quarto, sem se importar.
Ele: Luizaaaa...

25.6.07

Momentum 5

Oito horas da noite. Ele entra correndo no quarto. Ela pendurada no telefone.

Ela: Pois é, mas eu enviei o protocolo com tudo, CNPJ, assinatura, tudo.
Ele (tira uma pilha de papéis deuma gaveta): ...
Ela: Três vias? Como assim "três vias", Malu?
Ele (revirando os papéis): ...
Ela: Cacete, o Oswaldo não me passou os nomes deste grupo...
Ele (espalha tudo na cama): ...
Ela: ... tô te falando, Malu... isso é marcação... o cara quer é fuder comigo dentro daquela empresa.
Ele: Luiza...
Ela (pegando uma caneta e um bloquinho): Peraí, Malu... César, é linguagem figurada, amor... é só um corno escroto que quer se dar bem no escritório às minhas custas... pronto, Malu, pode me passar os nomes.
Ele: Amor, você o meu certificado de graduação que tava na gaveta?
Ela: Minutinho, amor... hã, Malu... tá... são só essas pessoas. E a quem eu devo encaminhar?
Ele (desiste e sai procurando em todas as gavetas): Cacete, viu...
Ela: Em três vias também? Certo.
Ele (acha o certificado dentro de uma gaveta de cuecas): ...
Ela: Vou te enviar o protocolo por email. Obrigada, Malu. Até amanhã.
Ele (guarda o documento numa pasta e vai saindo): Tchau.
Ela: Ei, César. Onde você vai?
Ele: Trabalhar.
Ela (olha no relógio): A essa hora?
Ele: É, amor. Coisa importante.
Ela: Que horas você chega?
Ele: Sem hora pra voltar, meu bem.
Ela: Putz... eu tô ovulando.
Ele (olha no relógio): A essa hora?
Ela: É, amor. Coisa importante.
Ele: ...
Ela: E aí?
Ele: Porra, você é foda, hein, Luiza.
Ele sai, batendo a porta. Ela liga o computador, acessando sua conta de e-mail.

2.6.07

Trilogia das Bestas: Crise entre Leoa e Zebra

Ela entra no quarto batendo a porta. Ele, sentado na cama, vendo filme e comendo biscoito.
Ele: Epa!
Ela: César.
Ele (olha no calendário do criado-mudo): ...
Ela: ...
Ele: Que foi?
Ela: Você não vai acreditar no que aconte... você tá comendo na cama?
Ele: Hã?
Ela: Você sempre me reprime por comer na cama, mas você pode?
Ele (pausa o filme): Luiza, é diferente, amor. Biscoitos de chocolate não espirra molho de tomate na almofada, e não espalha farofa pra tudo quanto é canto.
Ela: E as embalagens?
Ele (levanta uma tijela): Tão aqui. Direto daqui pro lixo.
Ela: Ah, tá... e as migalhas?
Ele (mostra um mini-aspirador de pó): Sem migalhas.
Ela: Merda!
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Mas o que você ia me dizer?
Ela: Eu? Nada.
Ele: Não, você ia me dizer algo sim.
Ela: Quando?
Ele: Agora, você entrou batendo a porta, meio furios...
Ela (emputecendo-se): Putz, César. Você tinha que me lembrar disso, né?
Ele: Mas amor...
Ela: Caralho. Você é fóda, viu, César.
Ele: Mas o que foi que eu fiz?
Ela: Não foi você dessa vez.
Ele: Ah, então eu tô levando esporro de graça. Me sinto bem melhor.
Ela: O Tiago. Você não acredita.
Ele: Que tem ele?
Ela: Ah... "O que tem?"
Ele: É.
Ela: "O que tem ele?"
Ele (olha pra cima, rezando por misericórida): ...
Ela: Ele cismou que... ele vai se casar, César.
Ele (ri): ...
Ela (puta): É engraçado, né?
Ele: Peraí, amor... você tá toda nervosa por causa disso?
Ela: César, ele é uma crian...
Ele: ... Criança, sim. Por isso mesmo, eu lhe pergunto qual o motivo da preocupação? Você acha mesmo que ele vai conseguir atingir tal objetivo?
Ela: César, você é um filho da puta.
Ele (sem entender): ... Peraí. essa foi realmente gratuita.
Ela: Não, foi motivada. Você sempre faz isso. Eu me preocupo pra caralho com o que acontece com a nossa família e você trata tudo com desdém. E no final das contas, tudo se resolve por minha causa e você leva os créditos sob as resoluções dos problemas.
Ele: Isso se chama liderança, amor. Eu aprendi isso na aula de meditação. Ter todas as coisas sob controle. Você precisa revisar os valores que te encaminham para um efeito positivo.
Ela: Ora, enfia esse valores no teu cú... eu já tô de saco cheio de você ser o bonzinho da relação quando, no fundo, sou eu quem vai correr atrás da minha irmã quando ela tenta um aborto natural, sou eu quem vai levar o teu pai pra revisões no oftalmologista por causa de uma possível glaucoma e sou eu, a mesma pessoa, que precisa tirar essa idéia estapafúrdia da cabeça do meu filho.
Ele: Luiza, você está fora de si.
Ela: César, eu tô cansada de ser a "dona vaca psicótica da história".
Ele: Você, realmente, não esqueceu o que aquela mulher disse, não é?
Ela: Você também não... ou pensa que eu não te vi malhando os glúteos naquele aparelho que você comprou pela internet?
Ele: É que eu ainda não entendi o comentário sobre minha bunda.
Ela: Ai...
Ele: Quer dizer que eu sou o que não faz nada e você é a salvadora da pátria... quer saber, Luiza... eu não quero discutir com você hoje. Você está alterada.
Ela: Pára de falar que eu estou alterada. Porque... eu tô mesmo.
Ele: Por causa de uma coisa pequena, meu amor.
Ela: César, esse menino vai cometer uma loucura.
Ele: É o Tiago, Luiza. Lembra que ele queria ser surfista, astronauta, vocalista do Slipknot? Então... é a mesma coisa.
Ela: Não é, César. Ele tá apaixonado. Ele vai querer fazer isso a qualquer custo.
Ele: Com a benção de quem, criatura? Eu lhe pergunto isso. Com a permissão de quem ele vai levar esta história adiante?
Ela: A noiva é a Carol, filha da Selma.
Ele (preocupa-se): ...
Ela: ...
Ele: Você não me diga que...
Ela: Ela já deu a tal benção.
Ele: Vaca ordinária!!
Ela: César, não fala assim. Ela é minha amiga.
Ele: Uma irresponsável. É isso que ela é.
Ela: Ela está pensando no futuro da filha dela.
Ele: Casando-a com um pirralho. Essa menina está grávida por um acaso?
Ela: Não que eu saiba.
Ele: Mesmo assim, eles não têm a nossa benção.
Ela
(senta na cama): ...
Ele: O quê?
Ela: Os pais dele ficaram de vir conhecer a Carol.
Ele: ...
Ela: ...
Ele (senta, tentando consolá-la): Então não há mais nada que você possa fazer, meu bem.
Ela: É... como sempre eu não sirvo pra nada.
Ele: Ai, meu Deus.
Ela: Mas quem sabe eu acerto agora, não é? Afinal, já faz quase seis meses que eu estou tentando ter um filho... e não consigo.
Ele: Luiza...
Ela (dá um tapinha na perna dele): Mas não se preocupa, não, meu bem. Daqui dois anos, eu acho que a gente consegue.
Ele (abraça ela): ...
Ela (secando as lágrimas): ... Desculpa.
Ele: Tá tudo bem.
Ela: ...
Ele (passando a mão no rosto dela): ...
Ela (chorando): Ah...
Ele: Que foi?
Ela: Menstrueeeeiii.
Ele: Ah... tá.

28.5.07

Trilogia das Bestas: A Vaca Desequilibrada

Ele concertando o despertador. Ela entra no quarto com o telefone na mão.

Ele: ...
Ela: César.
Ele: Hã?
Ela: Você acha que eu sou uma filha-da-puta quando tô de TPM?
Ele: ... hããã.... você tá de TPM hoje?
Ela: Tô.
Ele: Não, meu bem.
Ela (volta ao telefone): Viu só, Selma? O meu marido que disse.
Ele: ...
Ela: Ah, vai à merda, Selma.
Ele: ...
Ela (desliga): Ah...
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Era a Selma no telefone?
Ela: Não, César. Era uma vaca, traíra... sem-vergonha.
Ele (ri): ...
Ela: Tá rindo do quê?
Ele: Eu adoro a coincidência de TPM de vocês.
Ela (com olhar de ódio): ...
Ele (contendo o riso): ...
Ela: Isso é engraçado pra você, não é, César? Você realmente curte isso? Esse grande complô de hormônios femininos.
Ele: É. Sabia que a CIA anda recrutando mulheres como você e a Selma nesse período.
Ela: César, você perdeu a noção do perigo?
Ele: Eu tô brincando, cacete.
Ela: ...
Ele: Me dá aqui esse telefone.
Ela: Pra quê?
Ele (toma o telefone da mão dela): Porque eu sei que essa história ainda não acabou.
Ela: Como assim?
Ele: Tô sem saco pra explicar, Luiza.
Ela (pega o telefone de volta): Ah, pelo contrário, meu querido. Vais ficar sem saco se não me explicar.
Ele (a imitando): E o júri da nota 7 pra vaca nervosinha.
Ela: Césaaar...
Ele (pega o telefone de novo): Você quer mesmo saber?
Ela: Quero.
Ele: Peraí. Quantos dias faltam pra você menstruar? Três?
Ela: Dois.
Ele: Ih, fudeu.
Ela: Fudeu, por quê?
Ele: Se eu te contar acho que você vai chorar.
Ela: Eu, chorar? Eu nunca choro, César.
Ele: Chora sim. Beirando a terceira fase.
Ela: Terceira fase?
Ele: Da TPM.
Ela: E quando é isso?
Ele: Dois dias antes do tio Chico chegar.
Ela: Ai, odeio essa nomenclatura genealógica.
Ele: Vestígios da segunda fase.
Ela: E quais são os sintomas da primeira e segunda fases?
Ele: A primeira é aquela do sopro.
Ela: Sopro? Que é isso?
Ele: Você fica resmungando pela casa sobre o seu trabalho, sua vida, sobre nós, sobre sua família... e a cada resmungo, você solta um suspiro, um soprinho, quase bufando.
Ela (com um olhar seco): ...
Ele: É sério.
Ela: E a segunda?
Ele: Palavrão.
Ela: Hã?
Ele: Você passa a odiar tudo quanto é ser ou objeto à sua volta. E manifesta esse sentimento de repulsa sempre com um palavrão.
Ela: Ah, vá à merda.
Ele: Viu só... Estás na transição entre a segunda e a terceira fase.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Me devolve o telefone.
Ele: Você vai ligar pra Selma?
Ela: V... vou.
Ele: Mas pra xingar e irritar ou pra chorar pedindo desculpas?
Ela: Por que eu iria pedir desculpas praquela burguesa escrota?
Ele: Porque, apesar de meu total desprezo pela Selma como pessoa, ela é a única amiga que você tem que te entende e te conforta quando você precisa. Ela dá mais atenção a você do que ao marido... eu ainda desconfio que...
Ela (termina): Ela não é sapata, César.
Ele: Se você diz.
Ela: ...
Ele: Mas ela gosta de você. É uma pessoa que te quer bem. Amizade assim, verdadeira, não se acha em qualquer lugar, meu bem.
Ela (chorando): Ai, César. Me dá o telefone, vai.
Ele (sorrindo): Toma.
Ela ("debulhada" em lágrimas, discando um número no telefone): ...
Ele (passa a mão na cabeça dela): Segunda Fase. Concluída.

24.4.07

Trilogia das Bestas: A Cigarra e a Formiga

Ela sai toda molhada do banheiro. Ele, jogando video-game.

Ela: César.
Ele: Hum.
Ela: Eu tô meio puta.
Ele (fixado na televisão): Por quê, meu amor?
Ela: Ontem, eu tava andando no centro e fui abordada.
Ele: Abordada? Como assim? Por um tarado?
Ela: Não... quero dizer... pelo menos, eu acho que não, porque eu me certifiquei de que ela ficava um tanto longe da minha bunda.
Ele: Hum.
Ela (pensando): Será que ela era tarada?... Isso poderia explicar muita coisa... mas, enfim, amor... a mulher me abordou...
Ele: Peraí, o tarado é mulher?
Ela: Caramba, César. Acabei de falar que não era tarado.
Ele: Não. Você disse que não sabia se era.
Ela: Mas era uma mulher. Ponto. Só uma mulher.
Ele (voltando a atenção para a TV): Hum...
Ela: Dá pra desligar o joguinho?
Ele (pausa o jogo): Ai, caramba... Por que a traveca te abordou?
Ela: Por causa da blog.
Ele: E daí?
Ela: Ela me reconheceu, César! Sem nunca ter me visto na vida. Só pelo meu jeito de falar.
Ele (despausando o jogo): Ah, Luiza. Tenha a santa paciência.
Ela: Santa paciência?? Peraí. Tem mais.
Ele (concentrado na TV): Aiii... caramba, quase capotei na curva.
Ela (nervosa): César.
Ele (grita): Que é? Não acabou ainda?
Ela desliga a televisão.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Sua... vaca.
Ela (alterada): Vaca não, César. Neurótica.
Ele: O quê?
Ela: Neurótica. Ela falou que eu sou neurótica.
Ele: Calma, Luiza.
Ela (gritando): Que "calma" coisa nenhuma, César! A mulher nem me conhece e já vem com uma opinião formada sobre a minha pessoa... e má-formada, ainda por cima...
Ele (descontraído): Ah, amorzinho. Esse é o preço da fama. As pessoas vão acabar falando de você... e cá pra nós, você vai ligar pra opinião de uma "maria-ninguém" que te parou na rua?
Ela: A "Maria-ninguém" falou que você é um bunda fria.
Ele: Eu sou um "o quê"?
Ela: Um bunda fria.
Ele: E que porra é essa?
Ela: Sei lá. Coisa boa não é.
Ele: Sapata filha duma puta, cara.
Ela (quase chorando): Tá vendo só. Eu sou uma neurótica casada com um bunda fria.
Ele: Tem certeza de que ela não é tarada?
Ela: Que diferença isso faz?
Ele: Não entendi o comentário sobre a minha bunda.
Ela: Você tá me escutando, por um acaso??
Ele (liga a TV e reinicia o jogo): Tô, mas já tô cansando.
Ela: César, essa é a imagem que as pessoas estão tendo de mim.
Ele: Que pessoas, Luiza? Quais pessoas, pra começo de conversa?
Ela: Muitas... muitas pessoas que acessam esse blog escroto.
Ele: Aha... faz-me rir, amorzinho. Deve ser tudo família do blogueiro.
Ela: Sei lá. Só sei que eu não pedi esse carma... César, vamo cancelá essa bosta.
Ele (jogando): Cancelar o quê?
Ela: O blog.
Ele: Você tá doida, mulher?
Ela: Aí, até você tá concordando com a sapata tarada.
Ele: Você disse que ela não era tarada.
Ela (gritando): Esquece a mulher, César!
Ele (larga o controle): E você acha que acabar com tudo vai adiantar?
Ela: Eu não quero ser a doida varrida da história.
Ele: E nem eu pedi o posto de bunda fria, meu bem.
Ela: ...
Ele (pega novamente o controle): ...
Ela: César... a gente precisa fazer alguma coisa.
Ele: Ô criatura sem sôssego! Luizaaaa, eu já concordei em ter um filho.
Ela: Você concordou uma ova! Você está fazendo isso porque você me ama.
Ele: ...
Ela: Foi o que você me disse.
Ele: Você tá de TPM, não tá?
Ela: ... Tô quase.
Ele (desliga a TV e levanta): Eu já devia saber desde o começo.
Ela: Peraí, a conversa ainda não acabou... César, aonde você vai?
Ele: Vou tomar um banho pra refrescar as idéias... depois de tanto absurdo...
Ela: Vai sim, vá lá, refrescar... Bunda friiiiaa!
Ele: ...
Ela sai do quarto, batendo a porta.
Ele: Puta qui pariu, como se não bastasse a TPM, ainda tenho que aturar sapata que mexe com a cabeça da psicopata da minha mulher... não é fácil.

MORAL DA HISTÓRIA: Em time que está ganhando, o espeto é de pau... (porque essa história tinha que ter um trocadalho do carilho!)

16.4.07

Jogos Mortais

Ela, sentada na cama, com um notebook no colo. Ele, no chão, concentrado, meditando.

Ela: ...
Ele (de olhos fechados): ...
Ela: César.
Ele: ...
Ela: Amorzinho.
Ele (abre um olho): ...
Ela: Queridããão...
Ele (abre os dois e bufa): ...
Ela: Cacete, César... tô falando com você.
Ele: Que é, queridoooona?
Ela: Vem cá.
Ele: Ah, não vô não.
Ela: Eu preciso de sua ajuda.
Ele: Luiza, eu tô meio do meu exercício.
Ela: Que exercício? Tá parado aí, sentado, faz uns quinze minutos.
Ele: Pois é, esse é o exercício. Relaxar o corpo e trabalhar o espírito.
Ela: Então não é exercício.
Ele: Claro que é.
Ela: Não é, não. Isso é macumba.
Ele: Deixa de piadinha, vá, Luiza.
Ela: Olha só, eu levando esporro do professor... deixa disso, vem cá...
Ele: Não posso. Já disse.
Ela: César, o que custa você largar essa posição de Sherazade um minuto e vir me ajudar?
Ele: Um minuto fora de concentração é um minuto a menos de aspiração. Um minuto fora de minha própria energia, Luiza.
Ela: Ai, César. Vou te contar, viu. Se você não fosse tão fanático pelo Vasco, não bebesse que nem um gambá e não odiasse minha mãe, eu ia achar que tú era viado.
Ele: Epa!
Ela: Você tem uns lances de bichona, cara.
Ele (levanta, coçando o saco): Caralho, viu...
Ela: Isso aê, machoman...
Ele (senta do lado dela): Pra que é que você tanto precisa de minha ajuda?
Ela (apontando pra tela do computador): Olha aqui... depois que o Alladin salva o macaquinho, eu vou pra fase bônus ou continuo pelo mapa da fase 4?
Ele (puto): ...
Ela (sorrindo): Hein, amorzinho?
Ele: Vá pelo mapa.
Ela: Tem certeza?
Ele (faz cara de cú): ...
Ela: Tá certo. Pode voltar lá, princesa. Vai encontrar sua energia.
Ele sai em direção a cozinha, pra tomar uma cerveja.

14.2.07

Bidê motivos

Eles chegam de um jantar familiar.

Ela: E aí?
Ele: Que foi?
Ela: O que você achou?
Ele (tirando os sapatos): Do quê, meu amor?
Ela: Do apartamento onde mora a minha irmã.
Ele: Ah, sim. Muito chique, Luiza... Me senti meio preso, sabe? Com medo de quebrar alguma coisa.
Ela: Sabe que eu também... mas adorei esse upgrade da minha irmã. De riponga a socialite.
Ele: E esse mérito é todo dela, hein.
Ela: É sim.
Ele: É o lado positivo de se casar com um alemão que nunca viu uma mulher de verdade na vida.
Ela: Você acha?
Ele: Acho. Sorte dela.
Ela: Sorte por ser mulher, ou por ser mulher de verdade?
Ele (puto por antecipação): Luizaaa... esse é o tipo de pergunta que vai me conduzir a um instante em que eu vou me ferrar, não é?
Ela: Não, não. Só parece. Pode ficar tranquilo.
Ele: Porque, apesar de maluca, sua irmã consegue ser uma mulher muito atraente.
Ela: Sei... você quer dizer que eu então, não sou atraente?
Ele: Porra, você disse que não ia contornar as coisas.
Ela (rindo): Eu tô brincando, bobinho.
Ele: É... tô sabendo.
Ela: Mas que eu fiquei embasbacada com aquele apê, ah, meu filho, eu fiquei, viu...
Ele: Embasbacada?
Ela: É.
Ele: Nossa... a última vez que você ficou embasbacada com alguma coisa a gente foi expulso do museu, lembra?
Ela: Ah, o segurança que me encheu o saco falando que eu tava colocando a mão na escultura.
Ele: Tava mesmo. Aquela estátua que parecia um pinto... você tava ali, ó... (faz o gesto) alisando a horas...
Ela: Mas, César. Era imensa.
Ele: Você tem perseguição por coisa grande e fálica, já percebeu? Tudo que lembra uma rola imensa.
Ela: Por falar em rola imensa... no banheiro da minha irmã...
Ele: Aquele banheiro enorrrrrme... que tem até feirinha hippie dentro?
Ela: É esse mesmo... tem um pé de jabuticaba... nossa, César... eu olhei praquele pé de jabuticaba... a forma e estrutura daquele pé de jabuticaba... na hora, eu lembrei daquele filme com o Alexandre Frota.
Ele: Aquele do presidiário?
Ela: É.
Ele (embasbacado): Caramba.
Ela: Um banheiro lindo. Espaçoso, chique...
Ele: Ah, eu já sei qual é a sua. Você gostou do bidê, não é? Você adora um bidê, Luiza.
Ela: Ai, adorei. Eu gosto mesmo. Mas não é pra usar e nem fazer safadeza, não.... porque, nossa... aquele esquicho de água na bacurinha me dá uma aflição...
Ele: É mesmo, é? Então pra quê... o bidê?
Ela: Pra nada. Pra ficar lá. Acho muito chique ter bidê no banheiro.
Ele: Chique... o bidê?
Ela: É. Desde pequena eu tenho esse fascínio por essas coisas, sabe?
Ele: Que coisas?
Ela: Ah, essas coisas que só tio e tia velha tem em casa. Bidê, teto solar, aqueles jarros de barro chinês enormes no canto da sala.
Ele: Ah lá... jarro enorme... coisa grande e fálica!
Ela: Ai, um espetáculo aqueles jarros de barro chinês no canto da sala de estar.
Ele: Sabe que eu nunca vi isso. Jarros de barro chinês no canto da sala de estar. Nunca vi.
Ela: Ai, César, é lindo... quer dizer, eu achava lindo... hoje eu acho completamente brega, mas antes...
Ele: Contudo o bidê?
Ela: ... ainda sou fascinada.
Ele (ri): ...
Ela: Mas acho perigoso pra minha irmã ter uma coisa dessas em casa com uma criança pequena andando pra lá e pra cá.
Ele: Ué, mas porque você acha isso, amor? Você acha que pode ocorrer um acidente fatal?
Ela: Fatal também, mas... sei lá... vai que a criança ache que aquilo é bebedouro e beba aquela água nojenta.
Ele: Ela não vai achar isso, sabe por quê?
Ela: Por quê?
Ele: Porque seu sobrinho ainda não tem idade pra ficar bêbado num reveillon em saquarema.
Ela: Ai, eu tava cuma sede.
Ele: Vamo dormir, vai.

2.2.07

De volta para o presente

Eles chegam de viagem. Ela carregada de sacolas. Ele empurrando malas com rodinhas.

Ele: Praticidade... ainda bem que só tem roupa suja e souvenir barato nessa mala.
Ela: Por que ainda bem?
Ele: Porque a bosta da rodinha emperrou e eu tive que chutar as malas do elevador até aqui.
Ela: Ah...
Ele (larga as malas num canto): Enfim.. lar, doce...
Ela: Ai, nem me fala em doce...
Ele: Tá ruim, é?
Ela: Nossa... esse povo de Minas sabe mesmo pagar o pecado da gula, viu? Nunca vi tanto doce de leite, cajuzinho e pé-de-moleque na minha vida.
Ele (tirando os sapatos): Cê viu o tamanho daquela goiabada cascão na cozinha da minha tia?
Ela (deita na cama): Cê viu aquilo César?
Ele: Se não vi... fiquei com medo. Parecia aquele filme do Stephen King, "A coisa".
Ela: Muito grande. Acho que dava pra alimentar aquela cidade inteira.
Ele: Se juntasse com aquele tacho de doce-de-leite então...
Ela: Nossa, nem posso imaginar que já fico enjoada... e olha que nem tô grávida ainda.
Ele: Por falar em grávida porque você falou pra minha mãe que a gente está querendo ter um filho.
Ela: Ué, César. Falei. Por quê? Tem algum problema?
Ele: Não. Só achei estranho você chegar e falar assim... não sabia que a gente podia fazer isso.
Ela: Não. Mas a gente não pode.
Ele: Ué, então por que você falou?
Ela: Ai, César... você sabe como é sua mãe. Ela foi falando, falando... aí quem falou fui eu.
Ele: O que ela falou? E o que você falou?
Ela: Ah, muita coisa.
Ele: Muita coisa o quê, Luiza?
Ela: Ai, César. Ela me cumprimentou, perguntou como é que eu tava, eu disse que tava tudo bem, agradeci, porque não parece, mas eu sou uma pessoa educada. E depois ela virou e me perguntou "quando é que vocês dois vão ter filhos".
Ele (irônico): Caramba, quanta coisa, hein, ô.
Ela: Eu não te disse.
Ele: E aí você contou?
Ela: Não. Eu me segurei. Eu só contei quando ela falou que o meu cabelo tava frisado.
Ele (se irrita): Frisado o cú dela! Eu tinha feito escova em você quase toda semana.
Ela: Pois é.
Ele: Velha sem noção.
Ela: Calma, César. É sua mãe.
Ele: E além dela... você contou pra mais alguém?
Ela (desconversa): Você tá sentindo esse cheiro?
Ele: Que cheiro?
Ela (se levanta): Esse cheiro podre. Acho que vem da cozinha.
Ele: Eu não tô sentindo cheiro de nada... vem cá...
Ela (sai e depois volta): César, tá um cheiro horrível na cozinha. Acho que não vai dar pra gente ficar aqui hoje, não.
Ele: O cheiro é na cozinha. A gente quase não sai do quarto... vem cá, agora, que eu quero que você me responda o que eu te pergun...
Ela: Cacete!
Ele: Que foi agora?
Ela: Tem um ninho de rato debaixo do abajur!
Ele: Luiza, raciocina, mulher. "Ninho" de Rato???
Ela: Eu quero dizer no sentido figurado, ô bobão. Um monte de rato. Tudo filhotinho... Ai, que nojo... eu vou me embora daqui...
Ele (exaltado): Espera aí. Você não vai a lugar nenhum. Você tá fugindo de sua irresponsabilidade. Pra quem mais você contou sobre nós termos um filho?
Ela: Ai, César... pra minha mãe.
Ele: Sua mãe?
Ela: E meu pai. Na véspera de Natal.
Ele: Pro seu pai?... você contou para o seu pai? Mas... você ficou louca, mulher?
Ela: Por quê?
Ele: Me diz exatamente o que você disse a ele.
Ela: Que queríamos engravidar.
Ele: Eu quero as exatas palavras, Luiza.
Ela (encucada): Nossa, esse cheiro...
Ele: Luiiiiiza!
Ela: Ai, meu Deus. Eu sentei com ele na mesa de jantar pouco depois da meia-noite e disse que eu... e você... estávamos tentando ter um filho.
Ele: Tentando? Você falou que estávamos "tentando"?
Ela: Porra, qual o problema agora, hein?
Ele: Não se diz isso pra um pai, Luiza. Não se fala pra um pai que um garotão tá comendo a filha dele.
Ela (ri): Garotão?
Ele (aparentemente calmo): Não se dá uma notícia assim, meu bem.
Ela: Tá bom, César. E como as filhas fazem quando estão grávidas? Com elas contam para os pais?
Ele: Aí, é que tá o grande "X" da questão...
Ela (abaixa a cabeça): Meu Deus, tinha que ter um grande "X" da questão.
Ele: ... quando elas vão contar, elas já ESTÃO grávidas. Não estão "tentando". Entende agora?
Ela: ...
Ele: Entendeu?
Ela (puta): Entendi.
Ele (indo pro banheiro): ...
Ela: O que você vai fazer?
Ele: Vou tomar banho. Tô bravo com você.
Ela: Peraí. Você não vai matar o rato?
Ele: Não. Vai ter que dormir com esse "ninho" aí.
Ele fecha a porta do banheiro, dois minutos depois abre, com a cara mais enfezada ainda.
Ela: Que foi?
Ele: O chuveiro... queimou a resistência.
Ela: Hun...
Ele: Pega as malas e coloca de volta no carro.
Ela: Aonde que a gente vai?
Ele: Vamo voltar pra Muriaé.
Ela: Mas, peraí, César. E o rato?
Ele (saindo, novamente empurrando a mala com rodinhas): Traz ele também, faz o favor...
Ele sai, e ela o segue tampando o nariz devido ao odor nojento da cozinha.

17.12.06

Rapidinha

Ele entra no quarto falando no telefone celular e se depara com ela, vestida de sado-Mamãe-Noel, com um chicote vermelho na mão.

Ele: A oferta foi essa. Os japoneses queriam renegociar, mas... (ele olha pra ela) Eu te ligo mais tarde.
Ela (de salto em cima da cama): Hey Bad boy.
Ele (ri): Luiza, o que é isso?
Ela: Seu presente chegou mais cedo, garanhão.
Ele: Pô, eu nem me lembro se foi isso que eu pedi na minha cartinha.
Ela: Bom... depende muito se você foi um bom menino... (dá uma chicoteada na bunda dele)
Ele: Ai, caralho Luiza, isso dói!
Ela: Dói, é?
Ele: Não dá pra ser sem o chicote?
Ela: Bom, veremos. (abraça ele) Você escovou os dentes todos os dias? Fez a lição de casa? Ajudou sua mamãe?
Ele: Tinha que me fazer visualizar minha mãe nessa hora?
Ela: É, desculpe.
Ele: ...
Ela: Então...
Ele (tira a roupa): Vamo logo pro jingle bell, Noelita!
Ela (ri): ...
Dez minutos depois. Ele deitado fumando um cigarro. Ela deitada, com as pernas pra cima.
Ele: Precisa ficar nessa posição?
Ela: Preciso, eu não quero arriscar nada. Tô ovulando nesse exato momento.
Ele: Extatamente... como você sabe?
Ela: Ah, César. Mulher sabe dessas coisas.
Ele: E funciona esse lance de ficar de ponta cabeça?
Ela: Ajuda o espermatozóide preguiçoso.
Ele: Epa! O meu espermatozóide não é preguiçoso.
Ela: César, apaga esse cigarro. Vai atrapalhar na fecundação.
Ele: Tá bom. Tá bom... Sua mamãe noel louca varrida.
Ela (ri): ...
Ee olha o relógio.
Ele: Ihh, vou ter que trabalhar.
Ela: Já? Mas ainda são meio dia e meia.
Ele (colocando a camisa): Eu sei, mas é que eu tenho reunião com uns japoneses amanhã. O pessoal quer estar bem preparado para isso.
Ela: Japoneses, é?
Ele: É. Coisa importante. E você, não trabalha hoje?
Ela: Tirei folga.
Ele: Folga?
Ela: É.
Ele: Pra quê?
Ela: Para organizar um campanha de uma ONG que ajuda as pesquisa marinhas sobre os peixes elétricos do sul da Patagônia.
Ele: Entendi. Pra transar comigo.
Ela: Exato.
Ele: Eu tô indo. Você vai ficar aí?
Ela: Vou. Eu tenho o dia livre hoje pra ficar com as pernas pro ar.
Ele: Então tá bom... Tchau, marida.
Ela: Tchau, esposo.
Ele sai, mal vestido.
Ela (olhando pra cima): ... Caralho, aquele lustre tá sujo pra caramba.

16.12.06

Mais uma história...

Ele dormindo esticado na cama. Ela chega, com uma mala de viagem.

Ele (acorda): Oi, minha esposa.
Ela: E aí, meu marido?
Ele: Que horas são?
Ela: Duas e meia.
Ele (esfregando os olhos): Pô, Luiza, por que você não ligou? Eu te buscava no aeroporto.
Ela: Não, muito tarde. Peguei um táxi.
Ele: Certo.
Ela (coloca a mala no canto): ...
Ele: E sua irmã? Tá surtada ou doente?
Ela: Eu me convenço de que são apenas surtos.
Ele: E o bebê?
Ela: É... é pequeno ainda. Pra ser sincera eu não vi nada naquela foto do ultrasom.
Ele: Riscos de estrabismo?
Ela: Zero.
Ele: Ei... viu só.
Ele beija ela.
Ele: Tá cansada?
Ela: Um pouco. Por quê?
Ele: Tá meio séria, sei lá.
Ela: ...
Ele: Hein?
Ela(tirando os sapatos): César... eu vim pensando no caminho.
Ele: Vixe, já vi tudo.
Ela: Não, você não viu.
Ele: Ah, tá. Fala.
Ela: Eu... você sabe quando você abomina uma coisa e de repente aquilo que você tanto abomina parece ser tão cheio de graça e tão fácil... sabe, quando a gente pensa que uma coisa pode ser um horror, mas de repente toda a positividade referente a essa coisa se materializa num instante?
Ele (com carinha de conteúdo): Amor... eu acabei de acordar.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Eu quero engravidar.
Ele: Você o quê? Você quer ficar grávida? Grávida de uma criança?
Ela (sem paciência): Não, César. De um hipopótamo.
Ele: Mas... você odeia crianças.
Ela: Não. Eu não odeio.
Ele: Ah, então são ela que te odeiam.
Ela: É, mais ou menos isso.
Ele: ...
Ela: E então?
Ele: Então, o quê? Tem mais coisa?
Ela: Como "mais coisa", César? Quero saber o que você acha?
Ele: De ter um bebê?
Ela: É.
Ele: Acho... legal.
Ela: A médica da minha irmã disse que eu tenho um bom quadril para expulsar... é... como é que fala... soltar, é... cuspir a criança ao mundo?
Ele: Parir?
Ela: Parir, isso.
Ele: Sério mesmo??
Ela: Ou isso, ou a sapata tava me bulinando colocando a mão na minha bunda daquele jeito.
Ele: ...
Ela: Eu quero isso, César.
Ele: O quê? Cuspir uma criança ao mundo?
Ela: É... e depois fazê-la do nosso jeito.
Ele: Tem certeza que podemos fazer isso? Como sabemos se somos bons pais?
Ela: Eu sei lá. E a gente se deve perguntar isso?
Ele: Ué, acho que sim. Não?
Ela: ...
Ele: Caralho, essa conversa vai longe.
Ela: Eu quero terminá-la.
Ele: São quase 3 da manhã.
Ela: Eu quero engravidar, César. Eu quero ter um filho.
Ele (faz piada): Comigo?
Ela (ri): Pode ser. Você até que é bonitinho. Inteligente. Não tem tanta loucura hereditária no histórico.
Ele: ...
Ela (abraça ele): ...
Ele (a beija a testa): Então... deixemos de ser apenas DOIS nesta cama.
Ela: Tem certeza?
Ele: ... Tenho.
Ela: Não tá apavorado?
Ele: Um pouco. (imita ela) Será que ele vai nascer zarolho?
Ela: Bobo. É sério.
Ele: Eu tô um pouquinho nervoso, mas... vai ser... vai dar tudo certo.
Ela: Mas é meio difícil. Tudo vai mudar.
Ele: Deixe mudar. A gente bem que precisa de mudança.
Ela: César eu não tô falando de um móvel, nem de uma TV nova... é um filho.
Ele: Porra, Luiza. Eu já concordei, você quer agora que eu desista?
Ela: Tá bom. Desculpe.
Ele: ...
Ela: ...
Ele (beija a mão dela): Então...
Ela: ...
Ele: Vamo fabricar a parada?
Ela (ri): Ué, não tava com sono?
Ele: Tava com sono pra discutir relação... mas pra outra coisas...
Ela: César, você sempre acha que eu quero discuitr relação, não é? Pois o senhor fique sabendo...
Ele (interrompe): Ah, mamãe vai me colocar de castigo de novo?
Ela (joga um travesseiro nele): Ah, vê se dorme.
Ele a agarra, a deita na cama e beija a barriga dela.
Ela (sorrindo): ...
Ele: É... eu te amo.
Ela apaga a luz do abajur, o abraça e dorme.


26.11.06

Um na Cama

Caixas de pizza em cima da cama desarrumada. Ele esticado na cama, olhando pro teto. O som alto abafou a chegada do amigo, que desliga o rádio fitando a situação de César.

Outro: Opa!
Ele: Ah... graças a Deus que você chegou!
Outro: Pois é.
Ele (jogando as caixas pro canto): Tá meio bagunçado... a... deixa eu ver se...
Outro: Então... por que o telefonema urgente?
Ele: Nada demais, queria conversar contigo.
Outro: Cadê sua esposa?
Ele: Viajou.
Outro: Tá virando viado, seu César?
Ele: Porra, Ataíde. Claro que não. Tá me estranhando?
Outro: Então
por que me chamou? Qual a urgência?
Ele: Nenhuma. Meu deus, será que eu não posso querer atualizar as conversas com um amigo. Faz tempo que a gente não bate um papo, toma uma cervejinha, não faz não?
Outro: Seu César. Eu sou apenas o porteiro do prédio. E que eu me lembre, a gente nunca tomou cerveja juntos.
Ele: Tá mais do que na hora da gente mudar isso.
Outro: É?
Ele: É. Sentaí.
Outro (senta do lado de César): ...
Ele: E aí, vamos falar do quê? De mulé... futebol? Qual seu time do coração?
Outro: Eu sou Bahia desde criança.
Ele: Bahia.... Mto bom... o Bahia... é... tá numa fase difícil, né.... mas, é.... é um time bom. Tem sua... né....
Outro (apenas concorda): ...
Ele (sem graça, acende um cigarro): Ih, vem cá... você fuma?
Outro: Não, senhor.
Ele: Sem essa de senhor, Ataíde. Afinal, a gente tá aqui... né... nós dois... ó... amigos do peito. Sem formalidades, não é?
Outro: É... é sim.
Ele: Então... quer um cigarro?
Outro: Não. Eu não posso.
Ele: Ah, não. Por quê?
Outro: É... Problemas de doença causada pelo cigarro na minha família. Minha irmã morreu por causa de cancêr no pulmão e meu afilhado agora, só tem vinte e dois anos, tá com um buraco na traquéia desse taman...
Ele (interrompe, jogando o cigarro fora): É... o cigarro é uma mal danado, né... fumar realmente é uma atitude escrota.
Outro: Muito escrota.
Ele: Muito. Muito escrota.... e... aqui, vamo tomá uma cervejinha?
Outro: Muito obrigado, senhor. Eu não bebo.
Ele: Ah, não bebe também?
Outro: Não. Problemas de doença...
Ele: ... na família, né. Compreendo.
Outro: ...
Ele: Eeee... a sua esposa como está?
Outro: Não sei. Ela me deixou no mês passado. Levou os meninos e o Gusmão.
Ele: Gusmão?
Outro: É, meu cachorrinho.
Ele: Ah, o ca-cho-rriiiiinho.
Outro: Pois é. Disse que não dava mais, que queria o divórcio, se mudar.... mas como o divórcio tá caro, a gente só se separou mesmo.
Ele: Que coisa, hein, Ataíde...
Outro: É...
Ele: ...
Outro: ...
Ele (eufórico): Quer pizza? Tem pizza lá no forno. Cara, acabei de lembrar. Tem uma picanha no refrigerador. A gente desce lá no play, e faz um churrasco, o que você acha?
Outro: Não, obrigado. Eu não como carne.
Ele (meio puto, resmungando): Também não come carne?... Entendi.
Outro: ...
Ele: ...
Outro (olhando pro teto): ...
Ele (toma um gole de cerveja): ...
O telefone toca.
Ele (atende na velocidade da luz): Aloô?
Outro: Seu César... eu vou...
Ele (desesperado): Não, não tô ocupado, não. Tô tranquilo.
Outro: ... vou lá na portaria.
Ele: Espera um pouquinho. Não desliga não... (volta ao amigo) Valeu, Ataíde. Bom serviço, hein.
Outro (sai, quieto): ...
Ele: Não. Eu tô muito interessado em saber dos seus planos de parcelamento. Trabalho com VISA sim. Claaaaaro.

14.11.06

O Bebê de Rosemeire

Ela chega em casa, cansada. Ele na cama, organizando as contas da casa.

Ele: Olá, minha esposa.
Ela: Oi, meu marido.
Ele (na calculadora): ...
Ela (desanimada): ...
Ele: Como é que foi o curso?
Ela: Ah, nem te conto como foi esse curso.
Ele: Ué, não gostou?
Ela: Não, eu adorei.
Ele: Então...
Ela: Ai, César. Sabe aquela situação em que você deseja perder um dedo pra não estar presenciando?
Ele: Ihh, cacete... o que aconteceu?
Ela: O professor era zarolho!
Ele: Zarolho? Como assim? Vesgo, você quer dizer?
Ela: Não, zarolho mesmo, o que é bem pior do que vesgo. Daí você já pode adivinhar o que aconteceu, né.
Ele: Putz, que merda. Professor estrábico, cachorra no cio e sogra em praia de nudismo são três coisas que deviam ser abolidas do senso comum terrestre.
Ela: Terrestre?
Ele: É... não me atrevo a me envolver com dogmas e me expressar por planos celestiais, não é?
Ela (confusa): Planos celestiais?
Ele: Ou demoníacos. Eu só afirmo isso perante ao espectro da raça humana, que é o que eu conheço. Deus me livre de me debater com uma sogra nua morta ou uma cachorra tarada vinda dos céus.
Ela (percebe toda a ladainha): Em outras palavras...
Ele: ... professor estrábico é uma merda.
Ela: ...
Ele: ... e junto com a cachorra no cio e a sogra na praia naturalista...
Ela: ... são precursores das maiores vergonhas do mundo.
Ele: É, pode-se dizer que sim.
Ela (entra na dele): Não, é sério. É fato. Comprovado pelo Índice de Embaraço e Constrangimento computado através de pesquisas realizadas pela ONU.
Ele (vendo a conta do cartão de crédito): É mesmo?
Ela: Como é que ia saber, César? Você vem me falando de cachorra, sogra pelada e planos celestiais só porque eu falei do meu professor vesgo.
Ele: Estrábico.
Ela: Não. Zarolho, que é pior.
Ele: Você parcelou a compra do abajur?
Ela (muda o tom): Foi sim.
Ele: E vem cá, o que mesmo aconteceu na aula com o zarolho?
Ela: Pô, um professor zarolho, o que poderia ter acontecido?
Ele: Ué, milhares de coisas... e esse valor aqui? $67,80?
Ela: O óculos do seu pai.... pô, César, mas qual a coisa mais óbvia?
Ele: Que coisa mais óbvia? Eu sei lá. Pode ter acontecido um monte de coisas.
Ela: Eu falei pra você adivinhar.
Ele: Ah, Luiza, tô muito ocupado pra adivinhar.
Ela: Ah, esquece essa conversa. Foi uma merda mesmo.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Aqui. $105,40?
Ela: O mocassim da mamãe.
Ele: Sua mãe usa mocassim?
Ela: É, usa. Também tá no TOP das maiores vergonhas mundiais.
Ele: Ué, achei que queria terminar esse assunto.
Ela: O assunto do professor tá terminado. O das vergonhas não.
Ele: Por falar em vergonha e mocassim, sua mãe ligou.
Ela: Ai, que saco. O que ela queria?
Ele: Nada. Ficou falando um monte de coisas que eu não entendia depois disse pra te dizer que ela ligou.
Ela: E as coisas lá em casa? O papai tá melhor da coluna? A minha irmã tá bem?
Ele: Tá. O bebê está ótimo, apesar de tudo.
Ela: Que bebê?
Ele: Sua irmã tá grávida de quatro meses, Luiza.
Ela: Sério?
Ele: Você realmente escuta a sua mãe?
Ela: Quase nunca. Ela vive falando umas coisas que eu não entendo.
Ele: ...
Ela: Por que você disse "ótimo, apesar de tudo"?
Ele: Como?
Ela: Você falou "o bebê está ótimo", deu uma paradinha e depois disse "apesar de tudo".
Ele: Ah, sim. É que a sua irmã entrou no estado Alfa ao Ducentésimo Cosmo Universal.
Ela: Isso tem a ver com aquele seu assunto de planos celestiais?
Ele: Não.
Ela: O que isso quer dizer, então?
Ele: Quer dizer que a última depressão dela superou as outras cinco. Ela agora acha que carrega o fruto de uma entidade celestial em seu ventre.
Ela: No meu ventre?
Ele: Não, Luiza. No ventre dela.
Ela: Como assim? "Tipo" ela tá grávida de Deus?
Ele (ri): "Tipo" que eu também não entendo as loucuras da sua irmã.
Ela: E o que tem a saúde do bebê tem a ver com isso?
Ele: É que... ela tentou um aborto natural.
Ela: "Tentou" um aborto natural???
Ele: De novo! Eu não entendo as loucu...
Ela: Tá. E o bebê?
Ele: Tá bem. Mas o médico disse que se tal fato voltar a acontecer, me parece que a criança pode sofrer algum dano físico.
Ela: É mesmo, é?
Ele: Foi o que eu entendi.
Ela: Ai, César. Será que ele vai nascer com estrabismo?
Ele: Por se tratar de ser uma cria da sua irmã, uma criança com estrabismo seria a menor das minhas preocupações.
Ela: Ai, César. Eu vou ter quer que ir até lá.
Ele: Tá bom. Você quer ir mesmo?
Ela: Un-hu.
Ele: Então no fim-de-semana, a gente ...
Ela: Não, eu quero ir agora.
Ele: Luiza, são onze e meia da noite.
Ela: César, eu preciso salvar meu sobrinho.
Ele: De quem? Da mãe dele?
Ela: Exato.
Ele: Luiza, você vai quereu dirigir até São Paulo, a essa hora da noite?
Ela: Vou de ônibus.
Ele: Porra, Luiza.
Ela: Porra, César. Meu sobrinho vai nascer zarolho, caralho!

8.11.06

A Noite é nossa...

Ela no telefone com a amiga.

Ela: ... falou como se eu nem tivesse lá. Esse povinho que trabalha com cinema é foda... Cinema? Que horas? Às oito?... Ah, Selma, hoje acho que não vai dar... Ah, não sei, eu tô ficando muito pouco junto com o César. O César!... Meu mariiido!... Então, ele tá trabalhando muito, eu também, a gente mal tem tempo de se ver e hoje coincidiu de nós temos a noite livre... Não sei, tô pensando em alguma coisa romântica... só nós dois, velas, vinho, sei lá...
Ele (entra de repente, gargalhando): Luiza...
Ela: Fica pra depo... (olha pro marido) Oi, meu bem.
Ele: Olha só a "bitucona" que eu tirei do nariz, é igualzinho ao Mickey Mouse de perfil... olha!
Ela: ...
Ele (ligadão): Não parece?
Ela (volta ao telefone): Selma, te encontro às sete e meia na bilheteria, tá bom?

31.10.06

Me, myself and Youtube

(Para Daniel Sakê Tcheba Madureira, porque você faz valer a pena!)

Dois semi-nus em cima da cama.

Ele: Luiza.
Ela (zapeando os canais da TV): Oi.
Ele: Vamos fazer de novo?
Ela: Ai, César. Não quero mais não.
Ele: Só mais uma vez.
Ela: Não. Tô cansada. Chega.
Ele (animado): Vamo, vai. Só mais uma. Depois eu não te peço mais.
Ela: Eu disse "Não", porra.
Ele: Porra, Luiza.
Ela: Ai, que saco. Tá bom, mas é a última vez, hein?
Ele: Tá.
Ela: ...
Ele: Mas tem que fazer daquele jeito, que nem da outra vez... tem que fazer direito.
Ela: Tá, tá bom.
Ele: Vai... começa então.
Ela: Você começa.
Ele: Ah, tá...
Ela: ...
Ele: "Wanna a strawberry? You can't have it!"* (*Quer um morango? Você não pode ter!)
Ela (faz cara de choro): "But I wanna have it..."(Mas eu quero...)
Ele: "You're a stupid little baby there!" (Você é um bebê estúpido!)
Ela (chorando): Ohoho... "I'm not stupid!" (Eu não sou estúpido!)
Ele: "Yes, you are." (Sim, você é.)
Ela (gritando): "I'm not!!" (Eu não sou!!)
Ele (rindo): "Yes, you are!" (Sim, você é!)
Ela: "I'm not stupid!... I'm not stupid!" (Eu não sou estúpido!... Eu não sou estúpido!)
Ele (ri): ...
Ela (joga ele da cama): Pronto. Tá feliz agora?
Ela volta pra TV enquanto ele morre de rir, esticado no chão do quarto.

27.10.06

Chatuuuuu!

Ela recém-saída do banho, passando creme nas pernas, limpando os poros do rosto... enfim, um ritual já conhecido de muitas noites. Ele a observa.

Ela: ...
Ele (encarando a esposa): ...
Ela (olha pra ele): ...
Ele (senta do lado dela): ...
Ela: Que foi?
Ele: Luiza, você já reparou o quanto você é insuportável?
Ela: Por que essa pergunta, César?
Ele: Não... é que eu não entendo.
Ela: Não entende o fato de eu ser insuportável?
Ele: Não, o que eu não entendo é o fato de que você sabe que é insuportável e não faz nada pra mudar.
Ela: Pra que eu iria querer mudar?
Ele: Pra gente viver mais harmoniosamente.
Ela (ri): ...
Ele: Qual a graça, agora?
Ela: Você já reparou o quanto esse seu assunto é que é chato, César?
Ele: Mas é necessário.
Ela: Necessário, o cacete. Você tem uma síndrome. Essa é que é a verdade.
Ele: Síndrome?
Ela: É. Você foi criado por uma alcoólatra cleptomaníaca e por um corretor da bolsa agorafóbico. As brigas e disputas as quais você foi exposto lhe trouxe esse dom, essa psicose de querer viver harmoniosamente dentro do casamento a cada segundo. Isso é um saco.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Tá vendo como você é chata.
Ela: Ai, César. O que você quer de mim, hein?
Ele (analisando o físico dela): ...
Ela: Além das minhas coxas...
Ele: Nada... você não entende.
Ela: Então me fala.
Ele: Nada, esquece.
Ela: Não vai falar mais comigo?
Ele: ...
Ela: Voltamos aos 12 anos?
Ele: ...
Ela: Há quanto tempo somos casados?
Ele: Cinco anos e meio.
Ela: Você quer pedir a anulação?
Ele: Já é tarde.
Ela: Quer o divórcio?
Ele: Não.
Ela: Quer uma amante? Olha que eu conheço umas mulheres maravilhosas e um pouco menos insuportáveis.
Ele: Engraçadinha.
Ela: Não?
Ele: Não.
Ela: Então, se me der licença...
Ela passa a mão cheia de creme no rosto dele e apaga a luz para dormir.

23.10.06

30...!

Ela entra no quarto e o encontra pulando na cama, com uma corneta na mão e uma garrafa de vodka, pela metade, na outra.

Ela: César...
Ele: Amooorr... meu amooor!
Ela: O que você tá fazendo?
Ele: Amooorr... Luiza... vem!
Ela: César, cê tá maluco?
Ele: Felicidade... o mundo é perfeito!
Ela: Nota-se pela quantidade na garrafa.
Ele: Quer um gole?
Ela: César, ainda são duas da tarde.
Ele: Eu sei. Quer um gole?
Ela: Não... César, o quê é isso? Você sempre me repreende por migalhas no edredom, agora tá quase arrebentando o estrado.
Ele (soprando a corneta): Trinta, Luiza. Trinta!
Ela: Trinta o quê, meu bem?
Ele: Trinta publicações sobre a nossa vida naquele blog que você odeia.
Ela: Grande merda.
Ele: Já é alguma coisa, benzinho.
Ela: E daí, "benzinho"? A gente ganhou alguma coisa com isso?
Ele: Ué, reconhecimento, amor.
Ela: Reconhecimento da onde, César?
Ele: Você mesmo disse uma vez que uma mulher te parou na rua por causa de um texto do blog, lembra? Ela queria saber o nome daquele adesivo que você usa pra abortar...
Ela (tirando os sapatos): Nossa, você ainda não entendeu a história do adesivo, né?
Ele (meio bêbado): Luiza, vamos comemorar, amorzinho.
Ela: Ai, César. Não vejo isso como motivo pra festa.
Ele: Pô, é o nosso casamento. Nossas alegrias e tristezas durante cinco anos juntos. Nosso altos e baixos. Nossa intimidade, nossa vidinha singela.
Ela: Eu odeio vidinha singela.
Ele: Nossas transas...
Ela: E nossas "faltas de transas" também.
Ele: Então, amor. É nossa vida, cara. Vamo... vamo... vamo celebrar.
Ela (pensando em tudo o que ele disse): ...
Ele: Hein?
Ela (bufando): Me dá um pouco dessa vodka então, vai.

19.10.06

Falha Nossa

Os dois nus, debaixo do lençol, sentados na cama.
Ele: ...
Ela: ...
Ele (raivoso): ...
Ela: César.
Ele (ligeiro): Não fala nada, Luiza.
Ela (compreensiva): Amor...
Ele (interrompe): Não vem me crucificar, não... você também é culpada.
Ela: Como assim?
Ele: Isso nunca me aconteceu antes.
Ela (com um sorrisinho irônico): Tá.
Ele: Que foi?
Ela: Nada.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Tem coisa sim.
Ela: Nada, amor.
Ele: Ué, Luiza. Vai ficar escondendo as coisas de mim.
Ela: Putz, depois sou eu a psicopata.
Ele: Fala.
Ela: Ai, César.... é mentira.
Ele: O quê?
Ela: É mentira sua.
Ele: O que é mentira?
Ela: Isso... de que é a primeira vez que isso te acontece.
Ele: Por quê? Já aconteceu antes?
Ela: Comigo?? Só umas doze vezes.
Ele (envergonhado): Você contou quantas vezes eu falhei na cama?
Ela: Contei. Contei todas. Doze. E eu tô falando das vezes que você falhou enquanto tentava alguma coisa... não tô contando com os momentos em que você nem se quer manifestou o Mestre dos Magos frente a minha Caverna do Dragão, meu bem.
Ele: Caverna do Dragão? Isso é coisa da Selma, não é?
Ela: Não, isso é coisa sua. Você me ensinou essa expressão numa dessas suas falhas.
Ele: Eu devia estar bêbado.
Ela (bem-humorada): Você estava apaixonado, meu bem... e um pouco "broxa" também.
Ele: Só um pequeno detalhe.
Ela: Concordo.
Ele: Eu tô falando da piada, Luiza.
Ela: Eu também.
Ele: ...
Ela (se joga em cima dele): E aí, quer tentar de novo?
Ele: Você se importa de esperar um pouquinho?
Ela: Não. Por quê?
Ele: Eu queria tentar me recompor.
Ela (ri): Coisa de boiola, hein, César.
Ele: Vai me ajudar ou não?
Ela (ainda rindo): Vou, mas eu vou lá na cozinha comer alguma coisa enquanto você tenta reavivar a serpente doente, aí.
Ele: Esse tipo de comentário sobre meu pinto não vai ajudar nada no estímulo.
Ela (perde o bom humor): Ai, César. Como você é chato. Tudo o que eu falo é ofensa.
Ele (se indigna): Você não tá colaborando!
Ela (se indigna): Eu?
Ele: É. Fica com piadinhas, trocadilhos e risinhos aí...
Ela: Eu tô tentando descontrair, sei lá, ver o lado positivo da situação.
Ele: Lado positivo. Que lado positivo essa situação tem, menina?
Ela (se emputece): Meniiiina?
Ele: ...
Ela (escandaliza): Quer dizer que você tá com essa minhoca em estado de coma aí, enquanto eu, em estado de "me coma" aqui, não estou colaborando. É isso?
Ele: Quer saber? Eu é que vou pra cozinha.
Ela: Vai. Vai sim. Quem sabe lá, você consegue comer alguma coisa!
Ele pula em cima dela.

10.10.06

Momentum 4.8

Dois na cama. Hora da Leitura... interrompida pelo pensamento.

Ela: Sabe o que eu tava pensando?
Ele: Hum...
Ela: A xoxota da mulher, quando tá naquele esta...
Ele (interrompe, num ar político): Não, Luiza... agora não.
Ela: ... é... tá.

E voltam a leitura.

1.10.06

Troca de Papéis 2

Ele batucando numa caixa de sapatos. Ela pintando as unhas dos pés.
Ele (cantando): "Um velho calção de banho, um dia pra vadiar..."
Ela (sorri): ...
Ele: "... um mar que não tem tamanho"... Pô, Luiza, a gente bem que podia pegar uma praia amanhã, hein?
Ela: É mesmo, né?
Ele: Faz um tempão que a gente não vai à praia.
Ela (abrindo um vidrinho de esmalte): Porra, faz mesmo, né?
Ele: Então?
Ela: O quê?
Ele: Como o quê, amor? Praia, amanhã?
Ela (soprando o esmalte da unha): Vamo, amor. Vamo sim.
Ele: A gente pode chamar a Ana Maria com o Tadeu pra ir com a gente.
Ela: ...
Ele: Vou ligar pra eles. Tem o telefone deles?
Ela: De quem?
Ele: Do Tadeu e da Ana Maria.
Ela: Qual telefone você quer? Do Tadeu ou da Ana Maria?
Ele: Da casa deles, ué.
Ela: Eles se separaram, César.
Ele: O Tadeu?
Ela: É.
Ele: E a Ana Maria?
Ela (borra a pintura): Ai, merda... éééé César. O Tadeu e a Ana Maria... se separaram, ué.
Ele: Poxa, um casal tão feliz. Viviam na casa dos meus pais, fazendo festas...
Ela (indiferente): Pois é.
Ele: Como é que você soube disso?
Ela: Sua mãe.
Ele: Sei.
Ela: ...
Ele: Vem cá. E a praia?
Ela: Que tem a praia?
Ele (já meio estressado): Amanhã, Luiza!
Ela: Vamo, amor. Vamos sim.
Ele: E quem a gente vai chamar?
Ela: César, pega esse vidrinho de acetona aí que tá do seu lado.
Ele: Toma.
Ela (volta a atenção para os pés): ...
Ele: Hein?
Ela: Oi.
Ele: Quem a gente vai chamar?
Ela: Pra praia?
Ele (bufa): É.
Ela: Caralho, César. Vamos nós dois, ué. Precisa de mais alguém?
Ele: Ué, não?
Ela: Nossa, a minha companhia é tão ruim pra você querer chamar outra pessoa, assim tão desesperadamente?
Ele: Não, amor. É que eu queria um final de semana para relaxar, curtir o sol... "um dia pra vadiaaaar"...
Ela: E você não pode vadiar comigo?
Ele: Pô, Luiza, eu faço isso todo dia.
Ela: Hum...
Ele: E tem outra. Você vai querer ficar deitada tomando sol, ou lendo... e eu vou ficar sozinho, sem nada pra fazer.
Ela: Ué, você não queria vadiar, cacete?
Ele: Vadiar sozinho não tem graça.
Ela: ...
Ele: Queria sentar, tomar uma cervejinha, bater um papo...
Ela (olhando para os pés): Un-hu. Sei.
Ele: Viu só, nem aqui você conversa comigo.
Ela: Pega o algodão pra mim.... claro que converso, amor.
Ele (entregando o algodão): Por que você deixa tudo do meu lado?
Ela: Tá bom. A gente vai amanhã.
Ele: Na praia?
Ela: Un-hu.
Ele: Tá.
Ela: ...
Ele: E quem a gente vai chamar?
Ela: Hein?
Ele: Quem a gente vai convidar?
Ela (soprando as unhas de novo): Pra quê?
Ele (emputecido): Pra ir no prostíbulo chupar tangerina.
Ela: Ahã. Me passa mais algodão, por favor.