28.5.07

Trilogia das Bestas: A Vaca Desequilibrada

Ele concertando o despertador. Ela entra no quarto com o telefone na mão.

Ele: ...
Ela: César.
Ele: Hã?
Ela: Você acha que eu sou uma filha-da-puta quando tô de TPM?
Ele: ... hããã.... você tá de TPM hoje?
Ela: Tô.
Ele: Não, meu bem.
Ela (volta ao telefone): Viu só, Selma? O meu marido que disse.
Ele: ...
Ela: Ah, vai à merda, Selma.
Ele: ...
Ela (desliga): Ah...
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Era a Selma no telefone?
Ela: Não, César. Era uma vaca, traíra... sem-vergonha.
Ele (ri): ...
Ela: Tá rindo do quê?
Ele: Eu adoro a coincidência de TPM de vocês.
Ela (com olhar de ódio): ...
Ele (contendo o riso): ...
Ela: Isso é engraçado pra você, não é, César? Você realmente curte isso? Esse grande complô de hormônios femininos.
Ele: É. Sabia que a CIA anda recrutando mulheres como você e a Selma nesse período.
Ela: César, você perdeu a noção do perigo?
Ele: Eu tô brincando, cacete.
Ela: ...
Ele: Me dá aqui esse telefone.
Ela: Pra quê?
Ele (toma o telefone da mão dela): Porque eu sei que essa história ainda não acabou.
Ela: Como assim?
Ele: Tô sem saco pra explicar, Luiza.
Ela (pega o telefone de volta): Ah, pelo contrário, meu querido. Vais ficar sem saco se não me explicar.
Ele (a imitando): E o júri da nota 7 pra vaca nervosinha.
Ela: Césaaar...
Ele (pega o telefone de novo): Você quer mesmo saber?
Ela: Quero.
Ele: Peraí. Quantos dias faltam pra você menstruar? Três?
Ela: Dois.
Ele: Ih, fudeu.
Ela: Fudeu, por quê?
Ele: Se eu te contar acho que você vai chorar.
Ela: Eu, chorar? Eu nunca choro, César.
Ele: Chora sim. Beirando a terceira fase.
Ela: Terceira fase?
Ele: Da TPM.
Ela: E quando é isso?
Ele: Dois dias antes do tio Chico chegar.
Ela: Ai, odeio essa nomenclatura genealógica.
Ele: Vestígios da segunda fase.
Ela: E quais são os sintomas da primeira e segunda fases?
Ele: A primeira é aquela do sopro.
Ela: Sopro? Que é isso?
Ele: Você fica resmungando pela casa sobre o seu trabalho, sua vida, sobre nós, sobre sua família... e a cada resmungo, você solta um suspiro, um soprinho, quase bufando.
Ela (com um olhar seco): ...
Ele: É sério.
Ela: E a segunda?
Ele: Palavrão.
Ela: Hã?
Ele: Você passa a odiar tudo quanto é ser ou objeto à sua volta. E manifesta esse sentimento de repulsa sempre com um palavrão.
Ela: Ah, vá à merda.
Ele: Viu só... Estás na transição entre a segunda e a terceira fase.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Me devolve o telefone.
Ele: Você vai ligar pra Selma?
Ela: V... vou.
Ele: Mas pra xingar e irritar ou pra chorar pedindo desculpas?
Ela: Por que eu iria pedir desculpas praquela burguesa escrota?
Ele: Porque, apesar de meu total desprezo pela Selma como pessoa, ela é a única amiga que você tem que te entende e te conforta quando você precisa. Ela dá mais atenção a você do que ao marido... eu ainda desconfio que...
Ela (termina): Ela não é sapata, César.
Ele: Se você diz.
Ela: ...
Ele: Mas ela gosta de você. É uma pessoa que te quer bem. Amizade assim, verdadeira, não se acha em qualquer lugar, meu bem.
Ela (chorando): Ai, César. Me dá o telefone, vai.
Ele (sorrindo): Toma.
Ela ("debulhada" em lágrimas, discando um número no telefone): ...
Ele (passa a mão na cabeça dela): Segunda Fase. Concluída.

24.4.07

Trilogia das Bestas: A Cigarra e a Formiga

Ela sai toda molhada do banheiro. Ele, jogando video-game.

Ela: César.
Ele: Hum.
Ela: Eu tô meio puta.
Ele (fixado na televisão): Por quê, meu amor?
Ela: Ontem, eu tava andando no centro e fui abordada.
Ele: Abordada? Como assim? Por um tarado?
Ela: Não... quero dizer... pelo menos, eu acho que não, porque eu me certifiquei de que ela ficava um tanto longe da minha bunda.
Ele: Hum.
Ela (pensando): Será que ela era tarada?... Isso poderia explicar muita coisa... mas, enfim, amor... a mulher me abordou...
Ele: Peraí, o tarado é mulher?
Ela: Caramba, César. Acabei de falar que não era tarado.
Ele: Não. Você disse que não sabia se era.
Ela: Mas era uma mulher. Ponto. Só uma mulher.
Ele (voltando a atenção para a TV): Hum...
Ela: Dá pra desligar o joguinho?
Ele (pausa o jogo): Ai, caramba... Por que a traveca te abordou?
Ela: Por causa da blog.
Ele: E daí?
Ela: Ela me reconheceu, César! Sem nunca ter me visto na vida. Só pelo meu jeito de falar.
Ele (despausando o jogo): Ah, Luiza. Tenha a santa paciência.
Ela: Santa paciência?? Peraí. Tem mais.
Ele (concentrado na TV): Aiii... caramba, quase capotei na curva.
Ela (nervosa): César.
Ele (grita): Que é? Não acabou ainda?
Ela desliga a televisão.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Sua... vaca.
Ela (alterada): Vaca não, César. Neurótica.
Ele: O quê?
Ela: Neurótica. Ela falou que eu sou neurótica.
Ele: Calma, Luiza.
Ela (gritando): Que "calma" coisa nenhuma, César! A mulher nem me conhece e já vem com uma opinião formada sobre a minha pessoa... e má-formada, ainda por cima...
Ele (descontraído): Ah, amorzinho. Esse é o preço da fama. As pessoas vão acabar falando de você... e cá pra nós, você vai ligar pra opinião de uma "maria-ninguém" que te parou na rua?
Ela: A "Maria-ninguém" falou que você é um bunda fria.
Ele: Eu sou um "o quê"?
Ela: Um bunda fria.
Ele: E que porra é essa?
Ela: Sei lá. Coisa boa não é.
Ele: Sapata filha duma puta, cara.
Ela (quase chorando): Tá vendo só. Eu sou uma neurótica casada com um bunda fria.
Ele: Tem certeza de que ela não é tarada?
Ela: Que diferença isso faz?
Ele: Não entendi o comentário sobre a minha bunda.
Ela: Você tá me escutando, por um acaso??
Ele (liga a TV e reinicia o jogo): Tô, mas já tô cansando.
Ela: César, essa é a imagem que as pessoas estão tendo de mim.
Ele: Que pessoas, Luiza? Quais pessoas, pra começo de conversa?
Ela: Muitas... muitas pessoas que acessam esse blog escroto.
Ele: Aha... faz-me rir, amorzinho. Deve ser tudo família do blogueiro.
Ela: Sei lá. Só sei que eu não pedi esse carma... César, vamo cancelá essa bosta.
Ele (jogando): Cancelar o quê?
Ela: O blog.
Ele: Você tá doida, mulher?
Ela: Aí, até você tá concordando com a sapata tarada.
Ele: Você disse que ela não era tarada.
Ela (gritando): Esquece a mulher, César!
Ele (larga o controle): E você acha que acabar com tudo vai adiantar?
Ela: Eu não quero ser a doida varrida da história.
Ele: E nem eu pedi o posto de bunda fria, meu bem.
Ela: ...
Ele (pega novamente o controle): ...
Ela: César... a gente precisa fazer alguma coisa.
Ele: Ô criatura sem sôssego! Luizaaaa, eu já concordei em ter um filho.
Ela: Você concordou uma ova! Você está fazendo isso porque você me ama.
Ele: ...
Ela: Foi o que você me disse.
Ele: Você tá de TPM, não tá?
Ela: ... Tô quase.
Ele (desliga a TV e levanta): Eu já devia saber desde o começo.
Ela: Peraí, a conversa ainda não acabou... César, aonde você vai?
Ele: Vou tomar um banho pra refrescar as idéias... depois de tanto absurdo...
Ela: Vai sim, vá lá, refrescar... Bunda friiiiaa!
Ele: ...
Ela sai do quarto, batendo a porta.
Ele: Puta qui pariu, como se não bastasse a TPM, ainda tenho que aturar sapata que mexe com a cabeça da psicopata da minha mulher... não é fácil.

MORAL DA HISTÓRIA: Em time que está ganhando, o espeto é de pau... (porque essa história tinha que ter um trocadalho do carilho!)

16.4.07

Jogos Mortais

Ela, sentada na cama, com um notebook no colo. Ele, no chão, concentrado, meditando.

Ela: ...
Ele (de olhos fechados): ...
Ela: César.
Ele: ...
Ela: Amorzinho.
Ele (abre um olho): ...
Ela: Queridããão...
Ele (abre os dois e bufa): ...
Ela: Cacete, César... tô falando com você.
Ele: Que é, queridoooona?
Ela: Vem cá.
Ele: Ah, não vô não.
Ela: Eu preciso de sua ajuda.
Ele: Luiza, eu tô meio do meu exercício.
Ela: Que exercício? Tá parado aí, sentado, faz uns quinze minutos.
Ele: Pois é, esse é o exercício. Relaxar o corpo e trabalhar o espírito.
Ela: Então não é exercício.
Ele: Claro que é.
Ela: Não é, não. Isso é macumba.
Ele: Deixa de piadinha, vá, Luiza.
Ela: Olha só, eu levando esporro do professor... deixa disso, vem cá...
Ele: Não posso. Já disse.
Ela: César, o que custa você largar essa posição de Sherazade um minuto e vir me ajudar?
Ele: Um minuto fora de concentração é um minuto a menos de aspiração. Um minuto fora de minha própria energia, Luiza.
Ela: Ai, César. Vou te contar, viu. Se você não fosse tão fanático pelo Vasco, não bebesse que nem um gambá e não odiasse minha mãe, eu ia achar que tú era viado.
Ele: Epa!
Ela: Você tem uns lances de bichona, cara.
Ele (levanta, coçando o saco): Caralho, viu...
Ela: Isso aê, machoman...
Ele (senta do lado dela): Pra que é que você tanto precisa de minha ajuda?
Ela (apontando pra tela do computador): Olha aqui... depois que o Alladin salva o macaquinho, eu vou pra fase bônus ou continuo pelo mapa da fase 4?
Ele (puto): ...
Ela (sorrindo): Hein, amorzinho?
Ele: Vá pelo mapa.
Ela: Tem certeza?
Ele (faz cara de cú): ...
Ela: Tá certo. Pode voltar lá, princesa. Vai encontrar sua energia.
Ele sai em direção a cozinha, pra tomar uma cerveja.

14.2.07

Bidê motivos

Eles chegam de um jantar familiar.

Ela: E aí?
Ele: Que foi?
Ela: O que você achou?
Ele (tirando os sapatos): Do quê, meu amor?
Ela: Do apartamento onde mora a minha irmã.
Ele: Ah, sim. Muito chique, Luiza... Me senti meio preso, sabe? Com medo de quebrar alguma coisa.
Ela: Sabe que eu também... mas adorei esse upgrade da minha irmã. De riponga a socialite.
Ele: E esse mérito é todo dela, hein.
Ela: É sim.
Ele: É o lado positivo de se casar com um alemão que nunca viu uma mulher de verdade na vida.
Ela: Você acha?
Ele: Acho. Sorte dela.
Ela: Sorte por ser mulher, ou por ser mulher de verdade?
Ele (puto por antecipação): Luizaaa... esse é o tipo de pergunta que vai me conduzir a um instante em que eu vou me ferrar, não é?
Ela: Não, não. Só parece. Pode ficar tranquilo.
Ele: Porque, apesar de maluca, sua irmã consegue ser uma mulher muito atraente.
Ela: Sei... você quer dizer que eu então, não sou atraente?
Ele: Porra, você disse que não ia contornar as coisas.
Ela (rindo): Eu tô brincando, bobinho.
Ele: É... tô sabendo.
Ela: Mas que eu fiquei embasbacada com aquele apê, ah, meu filho, eu fiquei, viu...
Ele: Embasbacada?
Ela: É.
Ele: Nossa... a última vez que você ficou embasbacada com alguma coisa a gente foi expulso do museu, lembra?
Ela: Ah, o segurança que me encheu o saco falando que eu tava colocando a mão na escultura.
Ele: Tava mesmo. Aquela estátua que parecia um pinto... você tava ali, ó... (faz o gesto) alisando a horas...
Ela: Mas, César. Era imensa.
Ele: Você tem perseguição por coisa grande e fálica, já percebeu? Tudo que lembra uma rola imensa.
Ela: Por falar em rola imensa... no banheiro da minha irmã...
Ele: Aquele banheiro enorrrrrme... que tem até feirinha hippie dentro?
Ela: É esse mesmo... tem um pé de jabuticaba... nossa, César... eu olhei praquele pé de jabuticaba... a forma e estrutura daquele pé de jabuticaba... na hora, eu lembrei daquele filme com o Alexandre Frota.
Ele: Aquele do presidiário?
Ela: É.
Ele (embasbacado): Caramba.
Ela: Um banheiro lindo. Espaçoso, chique...
Ele: Ah, eu já sei qual é a sua. Você gostou do bidê, não é? Você adora um bidê, Luiza.
Ela: Ai, adorei. Eu gosto mesmo. Mas não é pra usar e nem fazer safadeza, não.... porque, nossa... aquele esquicho de água na bacurinha me dá uma aflição...
Ele: É mesmo, é? Então pra quê... o bidê?
Ela: Pra nada. Pra ficar lá. Acho muito chique ter bidê no banheiro.
Ele: Chique... o bidê?
Ela: É. Desde pequena eu tenho esse fascínio por essas coisas, sabe?
Ele: Que coisas?
Ela: Ah, essas coisas que só tio e tia velha tem em casa. Bidê, teto solar, aqueles jarros de barro chinês enormes no canto da sala.
Ele: Ah lá... jarro enorme... coisa grande e fálica!
Ela: Ai, um espetáculo aqueles jarros de barro chinês no canto da sala de estar.
Ele: Sabe que eu nunca vi isso. Jarros de barro chinês no canto da sala de estar. Nunca vi.
Ela: Ai, César, é lindo... quer dizer, eu achava lindo... hoje eu acho completamente brega, mas antes...
Ele: Contudo o bidê?
Ela: ... ainda sou fascinada.
Ele (ri): ...
Ela: Mas acho perigoso pra minha irmã ter uma coisa dessas em casa com uma criança pequena andando pra lá e pra cá.
Ele: Ué, mas porque você acha isso, amor? Você acha que pode ocorrer um acidente fatal?
Ela: Fatal também, mas... sei lá... vai que a criança ache que aquilo é bebedouro e beba aquela água nojenta.
Ele: Ela não vai achar isso, sabe por quê?
Ela: Por quê?
Ele: Porque seu sobrinho ainda não tem idade pra ficar bêbado num reveillon em saquarema.
Ela: Ai, eu tava cuma sede.
Ele: Vamo dormir, vai.

2.2.07

De volta para o presente

Eles chegam de viagem. Ela carregada de sacolas. Ele empurrando malas com rodinhas.

Ele: Praticidade... ainda bem que só tem roupa suja e souvenir barato nessa mala.
Ela: Por que ainda bem?
Ele: Porque a bosta da rodinha emperrou e eu tive que chutar as malas do elevador até aqui.
Ela: Ah...
Ele (larga as malas num canto): Enfim.. lar, doce...
Ela: Ai, nem me fala em doce...
Ele: Tá ruim, é?
Ela: Nossa... esse povo de Minas sabe mesmo pagar o pecado da gula, viu? Nunca vi tanto doce de leite, cajuzinho e pé-de-moleque na minha vida.
Ele (tirando os sapatos): Cê viu o tamanho daquela goiabada cascão na cozinha da minha tia?
Ela (deita na cama): Cê viu aquilo César?
Ele: Se não vi... fiquei com medo. Parecia aquele filme do Stephen King, "A coisa".
Ela: Muito grande. Acho que dava pra alimentar aquela cidade inteira.
Ele: Se juntasse com aquele tacho de doce-de-leite então...
Ela: Nossa, nem posso imaginar que já fico enjoada... e olha que nem tô grávida ainda.
Ele: Por falar em grávida porque você falou pra minha mãe que a gente está querendo ter um filho.
Ela: Ué, César. Falei. Por quê? Tem algum problema?
Ele: Não. Só achei estranho você chegar e falar assim... não sabia que a gente podia fazer isso.
Ela: Não. Mas a gente não pode.
Ele: Ué, então por que você falou?
Ela: Ai, César... você sabe como é sua mãe. Ela foi falando, falando... aí quem falou fui eu.
Ele: O que ela falou? E o que você falou?
Ela: Ah, muita coisa.
Ele: Muita coisa o quê, Luiza?
Ela: Ai, César. Ela me cumprimentou, perguntou como é que eu tava, eu disse que tava tudo bem, agradeci, porque não parece, mas eu sou uma pessoa educada. E depois ela virou e me perguntou "quando é que vocês dois vão ter filhos".
Ele (irônico): Caramba, quanta coisa, hein, ô.
Ela: Eu não te disse.
Ele: E aí você contou?
Ela: Não. Eu me segurei. Eu só contei quando ela falou que o meu cabelo tava frisado.
Ele (se irrita): Frisado o cú dela! Eu tinha feito escova em você quase toda semana.
Ela: Pois é.
Ele: Velha sem noção.
Ela: Calma, César. É sua mãe.
Ele: E além dela... você contou pra mais alguém?
Ela (desconversa): Você tá sentindo esse cheiro?
Ele: Que cheiro?
Ela (se levanta): Esse cheiro podre. Acho que vem da cozinha.
Ele: Eu não tô sentindo cheiro de nada... vem cá...
Ela (sai e depois volta): César, tá um cheiro horrível na cozinha. Acho que não vai dar pra gente ficar aqui hoje, não.
Ele: O cheiro é na cozinha. A gente quase não sai do quarto... vem cá, agora, que eu quero que você me responda o que eu te pergun...
Ela: Cacete!
Ele: Que foi agora?
Ela: Tem um ninho de rato debaixo do abajur!
Ele: Luiza, raciocina, mulher. "Ninho" de Rato???
Ela: Eu quero dizer no sentido figurado, ô bobão. Um monte de rato. Tudo filhotinho... Ai, que nojo... eu vou me embora daqui...
Ele (exaltado): Espera aí. Você não vai a lugar nenhum. Você tá fugindo de sua irresponsabilidade. Pra quem mais você contou sobre nós termos um filho?
Ela: Ai, César... pra minha mãe.
Ele: Sua mãe?
Ela: E meu pai. Na véspera de Natal.
Ele: Pro seu pai?... você contou para o seu pai? Mas... você ficou louca, mulher?
Ela: Por quê?
Ele: Me diz exatamente o que você disse a ele.
Ela: Que queríamos engravidar.
Ele: Eu quero as exatas palavras, Luiza.
Ela (encucada): Nossa, esse cheiro...
Ele: Luiiiiiza!
Ela: Ai, meu Deus. Eu sentei com ele na mesa de jantar pouco depois da meia-noite e disse que eu... e você... estávamos tentando ter um filho.
Ele: Tentando? Você falou que estávamos "tentando"?
Ela: Porra, qual o problema agora, hein?
Ele: Não se diz isso pra um pai, Luiza. Não se fala pra um pai que um garotão tá comendo a filha dele.
Ela (ri): Garotão?
Ele (aparentemente calmo): Não se dá uma notícia assim, meu bem.
Ela: Tá bom, César. E como as filhas fazem quando estão grávidas? Com elas contam para os pais?
Ele: Aí, é que tá o grande "X" da questão...
Ela (abaixa a cabeça): Meu Deus, tinha que ter um grande "X" da questão.
Ele: ... quando elas vão contar, elas já ESTÃO grávidas. Não estão "tentando". Entende agora?
Ela: ...
Ele: Entendeu?
Ela (puta): Entendi.
Ele (indo pro banheiro): ...
Ela: O que você vai fazer?
Ele: Vou tomar banho. Tô bravo com você.
Ela: Peraí. Você não vai matar o rato?
Ele: Não. Vai ter que dormir com esse "ninho" aí.
Ele fecha a porta do banheiro, dois minutos depois abre, com a cara mais enfezada ainda.
Ela: Que foi?
Ele: O chuveiro... queimou a resistência.
Ela: Hun...
Ele: Pega as malas e coloca de volta no carro.
Ela: Aonde que a gente vai?
Ele: Vamo voltar pra Muriaé.
Ela: Mas, peraí, César. E o rato?
Ele (saindo, novamente empurrando a mala com rodinhas): Traz ele também, faz o favor...
Ele sai, e ela o segue tampando o nariz devido ao odor nojento da cozinha.

17.12.06

Rapidinha

Ele entra no quarto falando no telefone celular e se depara com ela, vestida de sado-Mamãe-Noel, com um chicote vermelho na mão.

Ele: A oferta foi essa. Os japoneses queriam renegociar, mas... (ele olha pra ela) Eu te ligo mais tarde.
Ela (de salto em cima da cama): Hey Bad boy.
Ele (ri): Luiza, o que é isso?
Ela: Seu presente chegou mais cedo, garanhão.
Ele: Pô, eu nem me lembro se foi isso que eu pedi na minha cartinha.
Ela: Bom... depende muito se você foi um bom menino... (dá uma chicoteada na bunda dele)
Ele: Ai, caralho Luiza, isso dói!
Ela: Dói, é?
Ele: Não dá pra ser sem o chicote?
Ela: Bom, veremos. (abraça ele) Você escovou os dentes todos os dias? Fez a lição de casa? Ajudou sua mamãe?
Ele: Tinha que me fazer visualizar minha mãe nessa hora?
Ela: É, desculpe.
Ele: ...
Ela: Então...
Ele (tira a roupa): Vamo logo pro jingle bell, Noelita!
Ela (ri): ...
Dez minutos depois. Ele deitado fumando um cigarro. Ela deitada, com as pernas pra cima.
Ele: Precisa ficar nessa posição?
Ela: Preciso, eu não quero arriscar nada. Tô ovulando nesse exato momento.
Ele: Extatamente... como você sabe?
Ela: Ah, César. Mulher sabe dessas coisas.
Ele: E funciona esse lance de ficar de ponta cabeça?
Ela: Ajuda o espermatozóide preguiçoso.
Ele: Epa! O meu espermatozóide não é preguiçoso.
Ela: César, apaga esse cigarro. Vai atrapalhar na fecundação.
Ele: Tá bom. Tá bom... Sua mamãe noel louca varrida.
Ela (ri): ...
Ee olha o relógio.
Ele: Ihh, vou ter que trabalhar.
Ela: Já? Mas ainda são meio dia e meia.
Ele (colocando a camisa): Eu sei, mas é que eu tenho reunião com uns japoneses amanhã. O pessoal quer estar bem preparado para isso.
Ela: Japoneses, é?
Ele: É. Coisa importante. E você, não trabalha hoje?
Ela: Tirei folga.
Ele: Folga?
Ela: É.
Ele: Pra quê?
Ela: Para organizar um campanha de uma ONG que ajuda as pesquisa marinhas sobre os peixes elétricos do sul da Patagônia.
Ele: Entendi. Pra transar comigo.
Ela: Exato.
Ele: Eu tô indo. Você vai ficar aí?
Ela: Vou. Eu tenho o dia livre hoje pra ficar com as pernas pro ar.
Ele: Então tá bom... Tchau, marida.
Ela: Tchau, esposo.
Ele sai, mal vestido.
Ela (olhando pra cima): ... Caralho, aquele lustre tá sujo pra caramba.

16.12.06

Mais uma história...

Ele dormindo esticado na cama. Ela chega, com uma mala de viagem.

Ele (acorda): Oi, minha esposa.
Ela: E aí, meu marido?
Ele: Que horas são?
Ela: Duas e meia.
Ele (esfregando os olhos): Pô, Luiza, por que você não ligou? Eu te buscava no aeroporto.
Ela: Não, muito tarde. Peguei um táxi.
Ele: Certo.
Ela (coloca a mala no canto): ...
Ele: E sua irmã? Tá surtada ou doente?
Ela: Eu me convenço de que são apenas surtos.
Ele: E o bebê?
Ela: É... é pequeno ainda. Pra ser sincera eu não vi nada naquela foto do ultrasom.
Ele: Riscos de estrabismo?
Ela: Zero.
Ele: Ei... viu só.
Ele beija ela.
Ele: Tá cansada?
Ela: Um pouco. Por quê?
Ele: Tá meio séria, sei lá.
Ela: ...
Ele: Hein?
Ela(tirando os sapatos): César... eu vim pensando no caminho.
Ele: Vixe, já vi tudo.
Ela: Não, você não viu.
Ele: Ah, tá. Fala.
Ela: Eu... você sabe quando você abomina uma coisa e de repente aquilo que você tanto abomina parece ser tão cheio de graça e tão fácil... sabe, quando a gente pensa que uma coisa pode ser um horror, mas de repente toda a positividade referente a essa coisa se materializa num instante?
Ele (com carinha de conteúdo): Amor... eu acabei de acordar.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Eu quero engravidar.
Ele: Você o quê? Você quer ficar grávida? Grávida de uma criança?
Ela (sem paciência): Não, César. De um hipopótamo.
Ele: Mas... você odeia crianças.
Ela: Não. Eu não odeio.
Ele: Ah, então são ela que te odeiam.
Ela: É, mais ou menos isso.
Ele: ...
Ela: E então?
Ele: Então, o quê? Tem mais coisa?
Ela: Como "mais coisa", César? Quero saber o que você acha?
Ele: De ter um bebê?
Ela: É.
Ele: Acho... legal.
Ela: A médica da minha irmã disse que eu tenho um bom quadril para expulsar... é... como é que fala... soltar, é... cuspir a criança ao mundo?
Ele: Parir?
Ela: Parir, isso.
Ele: Sério mesmo??
Ela: Ou isso, ou a sapata tava me bulinando colocando a mão na minha bunda daquele jeito.
Ele: ...
Ela: Eu quero isso, César.
Ele: O quê? Cuspir uma criança ao mundo?
Ela: É... e depois fazê-la do nosso jeito.
Ele: Tem certeza que podemos fazer isso? Como sabemos se somos bons pais?
Ela: Eu sei lá. E a gente se deve perguntar isso?
Ele: Ué, acho que sim. Não?
Ela: ...
Ele: Caralho, essa conversa vai longe.
Ela: Eu quero terminá-la.
Ele: São quase 3 da manhã.
Ela: Eu quero engravidar, César. Eu quero ter um filho.
Ele (faz piada): Comigo?
Ela (ri): Pode ser. Você até que é bonitinho. Inteligente. Não tem tanta loucura hereditária no histórico.
Ele: ...
Ela (abraça ele): ...
Ele (a beija a testa): Então... deixemos de ser apenas DOIS nesta cama.
Ela: Tem certeza?
Ele: ... Tenho.
Ela: Não tá apavorado?
Ele: Um pouco. (imita ela) Será que ele vai nascer zarolho?
Ela: Bobo. É sério.
Ele: Eu tô um pouquinho nervoso, mas... vai ser... vai dar tudo certo.
Ela: Mas é meio difícil. Tudo vai mudar.
Ele: Deixe mudar. A gente bem que precisa de mudança.
Ela: César eu não tô falando de um móvel, nem de uma TV nova... é um filho.
Ele: Porra, Luiza. Eu já concordei, você quer agora que eu desista?
Ela: Tá bom. Desculpe.
Ele: ...
Ela: ...
Ele (beija a mão dela): Então...
Ela: ...
Ele: Vamo fabricar a parada?
Ela (ri): Ué, não tava com sono?
Ele: Tava com sono pra discutir relação... mas pra outra coisas...
Ela: César, você sempre acha que eu quero discuitr relação, não é? Pois o senhor fique sabendo...
Ele (interrompe): Ah, mamãe vai me colocar de castigo de novo?
Ela (joga um travesseiro nele): Ah, vê se dorme.
Ele a agarra, a deita na cama e beija a barriga dela.
Ela (sorrindo): ...
Ele: É... eu te amo.
Ela apaga a luz do abajur, o abraça e dorme.


26.11.06

Um na Cama

Caixas de pizza em cima da cama desarrumada. Ele esticado na cama, olhando pro teto. O som alto abafou a chegada do amigo, que desliga o rádio fitando a situação de César.

Outro: Opa!
Ele: Ah... graças a Deus que você chegou!
Outro: Pois é.
Ele (jogando as caixas pro canto): Tá meio bagunçado... a... deixa eu ver se...
Outro: Então... por que o telefonema urgente?
Ele: Nada demais, queria conversar contigo.
Outro: Cadê sua esposa?
Ele: Viajou.
Outro: Tá virando viado, seu César?
Ele: Porra, Ataíde. Claro que não. Tá me estranhando?
Outro: Então
por que me chamou? Qual a urgência?
Ele: Nenhuma. Meu deus, será que eu não posso querer atualizar as conversas com um amigo. Faz tempo que a gente não bate um papo, toma uma cervejinha, não faz não?
Outro: Seu César. Eu sou apenas o porteiro do prédio. E que eu me lembre, a gente nunca tomou cerveja juntos.
Ele: Tá mais do que na hora da gente mudar isso.
Outro: É?
Ele: É. Sentaí.
Outro (senta do lado de César): ...
Ele: E aí, vamos falar do quê? De mulé... futebol? Qual seu time do coração?
Outro: Eu sou Bahia desde criança.
Ele: Bahia.... Mto bom... o Bahia... é... tá numa fase difícil, né.... mas, é.... é um time bom. Tem sua... né....
Outro (apenas concorda): ...
Ele (sem graça, acende um cigarro): Ih, vem cá... você fuma?
Outro: Não, senhor.
Ele: Sem essa de senhor, Ataíde. Afinal, a gente tá aqui... né... nós dois... ó... amigos do peito. Sem formalidades, não é?
Outro: É... é sim.
Ele: Então... quer um cigarro?
Outro: Não. Eu não posso.
Ele: Ah, não. Por quê?
Outro: É... Problemas de doença causada pelo cigarro na minha família. Minha irmã morreu por causa de cancêr no pulmão e meu afilhado agora, só tem vinte e dois anos, tá com um buraco na traquéia desse taman...
Ele (interrompe, jogando o cigarro fora): É... o cigarro é uma mal danado, né... fumar realmente é uma atitude escrota.
Outro: Muito escrota.
Ele: Muito. Muito escrota.... e... aqui, vamo tomá uma cervejinha?
Outro: Muito obrigado, senhor. Eu não bebo.
Ele: Ah, não bebe também?
Outro: Não. Problemas de doença...
Ele: ... na família, né. Compreendo.
Outro: ...
Ele: Eeee... a sua esposa como está?
Outro: Não sei. Ela me deixou no mês passado. Levou os meninos e o Gusmão.
Ele: Gusmão?
Outro: É, meu cachorrinho.
Ele: Ah, o ca-cho-rriiiiinho.
Outro: Pois é. Disse que não dava mais, que queria o divórcio, se mudar.... mas como o divórcio tá caro, a gente só se separou mesmo.
Ele: Que coisa, hein, Ataíde...
Outro: É...
Ele: ...
Outro: ...
Ele (eufórico): Quer pizza? Tem pizza lá no forno. Cara, acabei de lembrar. Tem uma picanha no refrigerador. A gente desce lá no play, e faz um churrasco, o que você acha?
Outro: Não, obrigado. Eu não como carne.
Ele (meio puto, resmungando): Também não come carne?... Entendi.
Outro: ...
Ele: ...
Outro (olhando pro teto): ...
Ele (toma um gole de cerveja): ...
O telefone toca.
Ele (atende na velocidade da luz): Aloô?
Outro: Seu César... eu vou...
Ele (desesperado): Não, não tô ocupado, não. Tô tranquilo.
Outro: ... vou lá na portaria.
Ele: Espera um pouquinho. Não desliga não... (volta ao amigo) Valeu, Ataíde. Bom serviço, hein.
Outro (sai, quieto): ...
Ele: Não. Eu tô muito interessado em saber dos seus planos de parcelamento. Trabalho com VISA sim. Claaaaaro.

14.11.06

O Bebê de Rosemeire

Ela chega em casa, cansada. Ele na cama, organizando as contas da casa.

Ele: Olá, minha esposa.
Ela: Oi, meu marido.
Ele (na calculadora): ...
Ela (desanimada): ...
Ele: Como é que foi o curso?
Ela: Ah, nem te conto como foi esse curso.
Ele: Ué, não gostou?
Ela: Não, eu adorei.
Ele: Então...
Ela: Ai, César. Sabe aquela situação em que você deseja perder um dedo pra não estar presenciando?
Ele: Ihh, cacete... o que aconteceu?
Ela: O professor era zarolho!
Ele: Zarolho? Como assim? Vesgo, você quer dizer?
Ela: Não, zarolho mesmo, o que é bem pior do que vesgo. Daí você já pode adivinhar o que aconteceu, né.
Ele: Putz, que merda. Professor estrábico, cachorra no cio e sogra em praia de nudismo são três coisas que deviam ser abolidas do senso comum terrestre.
Ela: Terrestre?
Ele: É... não me atrevo a me envolver com dogmas e me expressar por planos celestiais, não é?
Ela (confusa): Planos celestiais?
Ele: Ou demoníacos. Eu só afirmo isso perante ao espectro da raça humana, que é o que eu conheço. Deus me livre de me debater com uma sogra nua morta ou uma cachorra tarada vinda dos céus.
Ela (percebe toda a ladainha): Em outras palavras...
Ele: ... professor estrábico é uma merda.
Ela: ...
Ele: ... e junto com a cachorra no cio e a sogra na praia naturalista...
Ela: ... são precursores das maiores vergonhas do mundo.
Ele: É, pode-se dizer que sim.
Ela (entra na dele): Não, é sério. É fato. Comprovado pelo Índice de Embaraço e Constrangimento computado através de pesquisas realizadas pela ONU.
Ele (vendo a conta do cartão de crédito): É mesmo?
Ela: Como é que ia saber, César? Você vem me falando de cachorra, sogra pelada e planos celestiais só porque eu falei do meu professor vesgo.
Ele: Estrábico.
Ela: Não. Zarolho, que é pior.
Ele: Você parcelou a compra do abajur?
Ela (muda o tom): Foi sim.
Ele: E vem cá, o que mesmo aconteceu na aula com o zarolho?
Ela: Pô, um professor zarolho, o que poderia ter acontecido?
Ele: Ué, milhares de coisas... e esse valor aqui? $67,80?
Ela: O óculos do seu pai.... pô, César, mas qual a coisa mais óbvia?
Ele: Que coisa mais óbvia? Eu sei lá. Pode ter acontecido um monte de coisas.
Ela: Eu falei pra você adivinhar.
Ele: Ah, Luiza, tô muito ocupado pra adivinhar.
Ela: Ah, esquece essa conversa. Foi uma merda mesmo.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Aqui. $105,40?
Ela: O mocassim da mamãe.
Ele: Sua mãe usa mocassim?
Ela: É, usa. Também tá no TOP das maiores vergonhas mundiais.
Ele: Ué, achei que queria terminar esse assunto.
Ela: O assunto do professor tá terminado. O das vergonhas não.
Ele: Por falar em vergonha e mocassim, sua mãe ligou.
Ela: Ai, que saco. O que ela queria?
Ele: Nada. Ficou falando um monte de coisas que eu não entendia depois disse pra te dizer que ela ligou.
Ela: E as coisas lá em casa? O papai tá melhor da coluna? A minha irmã tá bem?
Ele: Tá. O bebê está ótimo, apesar de tudo.
Ela: Que bebê?
Ele: Sua irmã tá grávida de quatro meses, Luiza.
Ela: Sério?
Ele: Você realmente escuta a sua mãe?
Ela: Quase nunca. Ela vive falando umas coisas que eu não entendo.
Ele: ...
Ela: Por que você disse "ótimo, apesar de tudo"?
Ele: Como?
Ela: Você falou "o bebê está ótimo", deu uma paradinha e depois disse "apesar de tudo".
Ele: Ah, sim. É que a sua irmã entrou no estado Alfa ao Ducentésimo Cosmo Universal.
Ela: Isso tem a ver com aquele seu assunto de planos celestiais?
Ele: Não.
Ela: O que isso quer dizer, então?
Ele: Quer dizer que a última depressão dela superou as outras cinco. Ela agora acha que carrega o fruto de uma entidade celestial em seu ventre.
Ela: No meu ventre?
Ele: Não, Luiza. No ventre dela.
Ela: Como assim? "Tipo" ela tá grávida de Deus?
Ele (ri): "Tipo" que eu também não entendo as loucuras da sua irmã.
Ela: E o que tem a saúde do bebê tem a ver com isso?
Ele: É que... ela tentou um aborto natural.
Ela: "Tentou" um aborto natural???
Ele: De novo! Eu não entendo as loucu...
Ela: Tá. E o bebê?
Ele: Tá bem. Mas o médico disse que se tal fato voltar a acontecer, me parece que a criança pode sofrer algum dano físico.
Ela: É mesmo, é?
Ele: Foi o que eu entendi.
Ela: Ai, César. Será que ele vai nascer com estrabismo?
Ele: Por se tratar de ser uma cria da sua irmã, uma criança com estrabismo seria a menor das minhas preocupações.
Ela: Ai, César. Eu vou ter quer que ir até lá.
Ele: Tá bom. Você quer ir mesmo?
Ela: Un-hu.
Ele: Então no fim-de-semana, a gente ...
Ela: Não, eu quero ir agora.
Ele: Luiza, são onze e meia da noite.
Ela: César, eu preciso salvar meu sobrinho.
Ele: De quem? Da mãe dele?
Ela: Exato.
Ele: Luiza, você vai quereu dirigir até São Paulo, a essa hora da noite?
Ela: Vou de ônibus.
Ele: Porra, Luiza.
Ela: Porra, César. Meu sobrinho vai nascer zarolho, caralho!

8.11.06

A Noite é nossa...

Ela no telefone com a amiga.

Ela: ... falou como se eu nem tivesse lá. Esse povinho que trabalha com cinema é foda... Cinema? Que horas? Às oito?... Ah, Selma, hoje acho que não vai dar... Ah, não sei, eu tô ficando muito pouco junto com o César. O César!... Meu mariiido!... Então, ele tá trabalhando muito, eu também, a gente mal tem tempo de se ver e hoje coincidiu de nós temos a noite livre... Não sei, tô pensando em alguma coisa romântica... só nós dois, velas, vinho, sei lá...
Ele (entra de repente, gargalhando): Luiza...
Ela: Fica pra depo... (olha pro marido) Oi, meu bem.
Ele: Olha só a "bitucona" que eu tirei do nariz, é igualzinho ao Mickey Mouse de perfil... olha!
Ela: ...
Ele (ligadão): Não parece?
Ela (volta ao telefone): Selma, te encontro às sete e meia na bilheteria, tá bom?

31.10.06

Me, myself and Youtube

(Para Daniel Sakê Tcheba Madureira, porque você faz valer a pena!)

Dois semi-nus em cima da cama.

Ele: Luiza.
Ela (zapeando os canais da TV): Oi.
Ele: Vamos fazer de novo?
Ela: Ai, César. Não quero mais não.
Ele: Só mais uma vez.
Ela: Não. Tô cansada. Chega.
Ele (animado): Vamo, vai. Só mais uma. Depois eu não te peço mais.
Ela: Eu disse "Não", porra.
Ele: Porra, Luiza.
Ela: Ai, que saco. Tá bom, mas é a última vez, hein?
Ele: Tá.
Ela: ...
Ele: Mas tem que fazer daquele jeito, que nem da outra vez... tem que fazer direito.
Ela: Tá, tá bom.
Ele: Vai... começa então.
Ela: Você começa.
Ele: Ah, tá...
Ela: ...
Ele: "Wanna a strawberry? You can't have it!"* (*Quer um morango? Você não pode ter!)
Ela (faz cara de choro): "But I wanna have it..."(Mas eu quero...)
Ele: "You're a stupid little baby there!" (Você é um bebê estúpido!)
Ela (chorando): Ohoho... "I'm not stupid!" (Eu não sou estúpido!)
Ele: "Yes, you are." (Sim, você é.)
Ela (gritando): "I'm not!!" (Eu não sou!!)
Ele (rindo): "Yes, you are!" (Sim, você é!)
Ela: "I'm not stupid!... I'm not stupid!" (Eu não sou estúpido!... Eu não sou estúpido!)
Ele (ri): ...
Ela (joga ele da cama): Pronto. Tá feliz agora?
Ela volta pra TV enquanto ele morre de rir, esticado no chão do quarto.

27.10.06

Chatuuuuu!

Ela recém-saída do banho, passando creme nas pernas, limpando os poros do rosto... enfim, um ritual já conhecido de muitas noites. Ele a observa.

Ela: ...
Ele (encarando a esposa): ...
Ela (olha pra ele): ...
Ele (senta do lado dela): ...
Ela: Que foi?
Ele: Luiza, você já reparou o quanto você é insuportável?
Ela: Por que essa pergunta, César?
Ele: Não... é que eu não entendo.
Ela: Não entende o fato de eu ser insuportável?
Ele: Não, o que eu não entendo é o fato de que você sabe que é insuportável e não faz nada pra mudar.
Ela: Pra que eu iria querer mudar?
Ele: Pra gente viver mais harmoniosamente.
Ela (ri): ...
Ele: Qual a graça, agora?
Ela: Você já reparou o quanto esse seu assunto é que é chato, César?
Ele: Mas é necessário.
Ela: Necessário, o cacete. Você tem uma síndrome. Essa é que é a verdade.
Ele: Síndrome?
Ela: É. Você foi criado por uma alcoólatra cleptomaníaca e por um corretor da bolsa agorafóbico. As brigas e disputas as quais você foi exposto lhe trouxe esse dom, essa psicose de querer viver harmoniosamente dentro do casamento a cada segundo. Isso é um saco.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Tá vendo como você é chata.
Ela: Ai, César. O que você quer de mim, hein?
Ele (analisando o físico dela): ...
Ela: Além das minhas coxas...
Ele: Nada... você não entende.
Ela: Então me fala.
Ele: Nada, esquece.
Ela: Não vai falar mais comigo?
Ele: ...
Ela: Voltamos aos 12 anos?
Ele: ...
Ela: Há quanto tempo somos casados?
Ele: Cinco anos e meio.
Ela: Você quer pedir a anulação?
Ele: Já é tarde.
Ela: Quer o divórcio?
Ele: Não.
Ela: Quer uma amante? Olha que eu conheço umas mulheres maravilhosas e um pouco menos insuportáveis.
Ele: Engraçadinha.
Ela: Não?
Ele: Não.
Ela: Então, se me der licença...
Ela passa a mão cheia de creme no rosto dele e apaga a luz para dormir.

23.10.06

30...!

Ela entra no quarto e o encontra pulando na cama, com uma corneta na mão e uma garrafa de vodka, pela metade, na outra.

Ela: César...
Ele: Amooorr... meu amooor!
Ela: O que você tá fazendo?
Ele: Amooorr... Luiza... vem!
Ela: César, cê tá maluco?
Ele: Felicidade... o mundo é perfeito!
Ela: Nota-se pela quantidade na garrafa.
Ele: Quer um gole?
Ela: César, ainda são duas da tarde.
Ele: Eu sei. Quer um gole?
Ela: Não... César, o quê é isso? Você sempre me repreende por migalhas no edredom, agora tá quase arrebentando o estrado.
Ele (soprando a corneta): Trinta, Luiza. Trinta!
Ela: Trinta o quê, meu bem?
Ele: Trinta publicações sobre a nossa vida naquele blog que você odeia.
Ela: Grande merda.
Ele: Já é alguma coisa, benzinho.
Ela: E daí, "benzinho"? A gente ganhou alguma coisa com isso?
Ele: Ué, reconhecimento, amor.
Ela: Reconhecimento da onde, César?
Ele: Você mesmo disse uma vez que uma mulher te parou na rua por causa de um texto do blog, lembra? Ela queria saber o nome daquele adesivo que você usa pra abortar...
Ela (tirando os sapatos): Nossa, você ainda não entendeu a história do adesivo, né?
Ele (meio bêbado): Luiza, vamos comemorar, amorzinho.
Ela: Ai, César. Não vejo isso como motivo pra festa.
Ele: Pô, é o nosso casamento. Nossas alegrias e tristezas durante cinco anos juntos. Nosso altos e baixos. Nossa intimidade, nossa vidinha singela.
Ela: Eu odeio vidinha singela.
Ele: Nossas transas...
Ela: E nossas "faltas de transas" também.
Ele: Então, amor. É nossa vida, cara. Vamo... vamo... vamo celebrar.
Ela (pensando em tudo o que ele disse): ...
Ele: Hein?
Ela (bufando): Me dá um pouco dessa vodka então, vai.

19.10.06

Falha Nossa

Os dois nus, debaixo do lençol, sentados na cama.
Ele: ...
Ela: ...
Ele (raivoso): ...
Ela: César.
Ele (ligeiro): Não fala nada, Luiza.
Ela (compreensiva): Amor...
Ele (interrompe): Não vem me crucificar, não... você também é culpada.
Ela: Como assim?
Ele: Isso nunca me aconteceu antes.
Ela (com um sorrisinho irônico): Tá.
Ele: Que foi?
Ela: Nada.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Tem coisa sim.
Ela: Nada, amor.
Ele: Ué, Luiza. Vai ficar escondendo as coisas de mim.
Ela: Putz, depois sou eu a psicopata.
Ele: Fala.
Ela: Ai, César.... é mentira.
Ele: O quê?
Ela: É mentira sua.
Ele: O que é mentira?
Ela: Isso... de que é a primeira vez que isso te acontece.
Ele: Por quê? Já aconteceu antes?
Ela: Comigo?? Só umas doze vezes.
Ele (envergonhado): Você contou quantas vezes eu falhei na cama?
Ela: Contei. Contei todas. Doze. E eu tô falando das vezes que você falhou enquanto tentava alguma coisa... não tô contando com os momentos em que você nem se quer manifestou o Mestre dos Magos frente a minha Caverna do Dragão, meu bem.
Ele: Caverna do Dragão? Isso é coisa da Selma, não é?
Ela: Não, isso é coisa sua. Você me ensinou essa expressão numa dessas suas falhas.
Ele: Eu devia estar bêbado.
Ela (bem-humorada): Você estava apaixonado, meu bem... e um pouco "broxa" também.
Ele: Só um pequeno detalhe.
Ela: Concordo.
Ele: Eu tô falando da piada, Luiza.
Ela: Eu também.
Ele: ...
Ela (se joga em cima dele): E aí, quer tentar de novo?
Ele: Você se importa de esperar um pouquinho?
Ela: Não. Por quê?
Ele: Eu queria tentar me recompor.
Ela (ri): Coisa de boiola, hein, César.
Ele: Vai me ajudar ou não?
Ela (ainda rindo): Vou, mas eu vou lá na cozinha comer alguma coisa enquanto você tenta reavivar a serpente doente, aí.
Ele: Esse tipo de comentário sobre meu pinto não vai ajudar nada no estímulo.
Ela (perde o bom humor): Ai, César. Como você é chato. Tudo o que eu falo é ofensa.
Ele (se indigna): Você não tá colaborando!
Ela (se indigna): Eu?
Ele: É. Fica com piadinhas, trocadilhos e risinhos aí...
Ela: Eu tô tentando descontrair, sei lá, ver o lado positivo da situação.
Ele: Lado positivo. Que lado positivo essa situação tem, menina?
Ela (se emputece): Meniiiina?
Ele: ...
Ela (escandaliza): Quer dizer que você tá com essa minhoca em estado de coma aí, enquanto eu, em estado de "me coma" aqui, não estou colaborando. É isso?
Ele: Quer saber? Eu é que vou pra cozinha.
Ela: Vai. Vai sim. Quem sabe lá, você consegue comer alguma coisa!
Ele pula em cima dela.

10.10.06

Momentum 4.8

Dois na cama. Hora da Leitura... interrompida pelo pensamento.

Ela: Sabe o que eu tava pensando?
Ele: Hum...
Ela: A xoxota da mulher, quando tá naquele esta...
Ele (interrompe, num ar político): Não, Luiza... agora não.
Ela: ... é... tá.

E voltam a leitura.

1.10.06

Troca de Papéis 2

Ele batucando numa caixa de sapatos. Ela pintando as unhas dos pés.
Ele (cantando): "Um velho calção de banho, um dia pra vadiar..."
Ela (sorri): ...
Ele: "... um mar que não tem tamanho"... Pô, Luiza, a gente bem que podia pegar uma praia amanhã, hein?
Ela: É mesmo, né?
Ele: Faz um tempão que a gente não vai à praia.
Ela (abrindo um vidrinho de esmalte): Porra, faz mesmo, né?
Ele: Então?
Ela: O quê?
Ele: Como o quê, amor? Praia, amanhã?
Ela (soprando o esmalte da unha): Vamo, amor. Vamo sim.
Ele: A gente pode chamar a Ana Maria com o Tadeu pra ir com a gente.
Ela: ...
Ele: Vou ligar pra eles. Tem o telefone deles?
Ela: De quem?
Ele: Do Tadeu e da Ana Maria.
Ela: Qual telefone você quer? Do Tadeu ou da Ana Maria?
Ele: Da casa deles, ué.
Ela: Eles se separaram, César.
Ele: O Tadeu?
Ela: É.
Ele: E a Ana Maria?
Ela (borra a pintura): Ai, merda... éééé César. O Tadeu e a Ana Maria... se separaram, ué.
Ele: Poxa, um casal tão feliz. Viviam na casa dos meus pais, fazendo festas...
Ela (indiferente): Pois é.
Ele: Como é que você soube disso?
Ela: Sua mãe.
Ele: Sei.
Ela: ...
Ele: Vem cá. E a praia?
Ela: Que tem a praia?
Ele (já meio estressado): Amanhã, Luiza!
Ela: Vamo, amor. Vamos sim.
Ele: E quem a gente vai chamar?
Ela: César, pega esse vidrinho de acetona aí que tá do seu lado.
Ele: Toma.
Ela (volta a atenção para os pés): ...
Ele: Hein?
Ela: Oi.
Ele: Quem a gente vai chamar?
Ela: Pra praia?
Ele (bufa): É.
Ela: Caralho, César. Vamos nós dois, ué. Precisa de mais alguém?
Ele: Ué, não?
Ela: Nossa, a minha companhia é tão ruim pra você querer chamar outra pessoa, assim tão desesperadamente?
Ele: Não, amor. É que eu queria um final de semana para relaxar, curtir o sol... "um dia pra vadiaaaar"...
Ela: E você não pode vadiar comigo?
Ele: Pô, Luiza, eu faço isso todo dia.
Ela: Hum...
Ele: E tem outra. Você vai querer ficar deitada tomando sol, ou lendo... e eu vou ficar sozinho, sem nada pra fazer.
Ela: Ué, você não queria vadiar, cacete?
Ele: Vadiar sozinho não tem graça.
Ela: ...
Ele: Queria sentar, tomar uma cervejinha, bater um papo...
Ela (olhando para os pés): Un-hu. Sei.
Ele: Viu só, nem aqui você conversa comigo.
Ela: Pega o algodão pra mim.... claro que converso, amor.
Ele (entregando o algodão): Por que você deixa tudo do meu lado?
Ela: Tá bom. A gente vai amanhã.
Ele: Na praia?
Ela: Un-hu.
Ele: Tá.
Ela: ...
Ele: E quem a gente vai chamar?
Ela: Hein?
Ele: Quem a gente vai convidar?
Ela (soprando as unhas de novo): Pra quê?
Ele (emputecido): Pra ir no prostíbulo chupar tangerina.
Ela: Ahã. Me passa mais algodão, por favor.

27.9.06

Ingredientes

Ele suado, arrumando o lençol da cama. Ela sai do banheiro, molhada, enrolada em uma toalha.
Ele: ...
Ela: Vê pra mim.
Ele (se agacha, investigando por baixo da toalha dela): Deixe-me ver.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: E agora? Saiu?
Ele (levanta): Saiu sim.
Ela: Ai, graças a Deus. Eu não sabia que leite condensado era tão difícil de sair, até com água e sabão.

11.9.06

Aurélio

Ela sentada do lado da cama. Ele, atrás dela, ajoelhado em cima da cama, fazendo chapinha nela.

Ele: Sabe o que eu acho engraçado?
Ela: O quê?
Ele: Esse nome. Chapinha. Um tanto quanto desenvolto.
Ela (ri): O que é que tem?
Ele: Parece meio esdrúxulo e ao mesmo tempo tão singelo.
Ela (ri): ...
Ele: Que foi?
Ela: Engoliu um dicionário... é, ô papagaio?
Ele: Tô treinando meu vocabulário.
Ela: É mesmo, é?
Ele: É. O que achou?
Ela: Se nossas posições fossem inversas eu estaria quase vomitando em cima de você.
Ele: Ah, o que dizer de uma pessoa desviada do caminho cultural.
Ela: Agora chega, César. Já deixou de ser engraçado.
Ele: Fica quieta, Luiza. Aí, ó... vou acabar queimando sua orelha.
Ela: Então páaara.
Ele (apertando o aparelho em uma das mechas): Já parei.
Ela: ...
Ele: Putz...
Ela: O quê?
Ele: Você não lavou o cabelo direito.
Ela: Claro que lavei.
Ele: Não lavou. Tá todo cheio de condicionador aqui embaixo.
Ela (ironiza): Não estaria "pleno" de condicionador??
Ele (rápido): Não começa.
Ela: Mas eu lavei.
Ele: Tudo menos a nuca.
Ela: Ai, cacete, César. Você não vai me fazer voltar praquele chuveiro, vai?
Ele: Vai estragar todo o resto.
Ela: Então?
Ele: ...
Ela: ...
Ele (lamenta): Por que você não me deixou lavar seu cabelo?
Ela (pausa, depois sorri): Porque eu não tenho 4 anos de idade.
Ele: Ué... tú pagas uma fortuna no salão de beleza pras bichas ficar lavando seu cabelo. Por que eu não posso?
Ela: Peraí. Com as bicha é diferente. Eu não sou casada com nenhuma delas. E elas são bichas.
Ele: Então essa é a única questão que tu me ofereces: a sexualidade de quem mexe no seu cabelo?
Ela (já nervosa): Exatamente... homem que é homem não quer saber de ficar alisando cabelo de perua. Principalmente o homem que é meu.
Ele: Mas como tú és preconceituosa, hein, Luiza.
Ela (nervosa): Ai, César. Termina essa bosta desse cabelo logo e não me chateia com discussão ridícula. Que saco, eu tô atrasada.
Ele (continua): Ah, tu sabias muito bem que...
Ela (interrompe no grito): E pará de falar na segunda pessoa que isso tá me irritando.
Ele: ...
Ela: Parece português de botequim de esquina, tá louco...
Ele (baixinho): Tô treinando meu vocabulário.
Ela(bufa, irritada):
Ele: Aí, ó...
Ela (impaciente): O que foi agora?
Ele: Você mexeu... pegou muito perto da raiz. Vai enfraquecer.
Ela: Como assim? Eu vou ficar careca?
Ele: Não, se você lavar o cabelo agora.
Ela (olha pra ele): Ah, não. Eu tenho que tá na convenção daqui vinte minutos.
Ele (olha pra baixo): Então esquece raiz bem nutrida.
Ela (se levanta): Puta, mas que caralho, César. Eu te peço um favorzinho e você merdeia a coisa toda, não é?
Ele: Merdeia?
Ela (indo pro chuveiro): É. Tô treinando o MEU vocabulário.

6.9.06

Sorte do dia

Debaixo do edredom: dois sentados na cama. Em cima do edredom: caixinhas de comida chinesa.

Ele (quebra o biscoitinho) : "As pessoas que acreditam que um problema possa ser resolvido tendem a trabalhar para resolvê-lo". Viu só, Luiza?
Ela: O que você quer dizer com esse "viu só, Luiza"?
Ele: Nada.
Ela (ironiza): Nada, não. Quis dizer Tudo, né.
Ele: Amor, foi só um comentário.
Ela: César, você tem mania de fazer comentários, já percebeu?
Ele: E você tem mania de julgar todos os meus comentários, já percebeu?
Ela: ...
Ele: O que diz o seu?
Ela: Peraí... "Nada existe de mais frágil do que uma criatura iludida a seu próprio respeito".
Ele: Ah, tudo a ver com você.
Ela: Quê isso? Que "tudo a ver comigo"?
Ele: Criatura... frágil... iludida... sem respeito... ah, conheço essa.
Ela: Ah, César. Você não entendeu nada do que tá escrito aqui, né?
Ele: Amorzinho, eu nunca entendo.
Ela: Tá certo.
Ele: O meu único interesse em comida oriental é o franguinho com amendoim.
Ela: Xadrez.
Ele: Isso aí.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Vem cá, mas você acha que eu sou iludida? Digo... a meu próprio respeito.
Ele: Acho.
Ela: Sério?
Ele (rápido): Mas não é culpa sua.
Ela: Não?
Ele: Não.
Ela: Então de quem é? Sua?
Ele: Não... minha, não. Quê isso? Eu lá sou louco de mexer com o sentimento de uma criatura frágil como tu.
Ela: Então...
Ele: A culpa é da mídia televisiva.
Ela: De onde você tirou isso, César?
Ele: Ué, foi aquele cara que trabalha no departamento de marketing da empresa que você trabalha que disse naquela palestra sobre...
Ela (interrompe): Ai, César, você acredita em tudo o que te falam, homem?
Ele: Ué, aquilo era mentira?
Ela (pensa): Bem... Não, totalmente.
Ele (também pensativo): Hum...
Ela: ...
Ele: Vem cá, o que exatamente faz a empresa que você trabalha?
Ela: Não sei... sabe que acho que tem alguma coisa a ver com o ramo de tecnologia do governo?
Ele (surpreso): É mesmo, é?
Ela (incerta): Tenho a leve impressão.
Ele: Coisa grande, hein?
Ela: Nem fala.

31.8.06

Os Picaretas

Domingo de sol. Dia de praia, descontração, futebol, almoço em família. Aquelas coisas.
Nada é tanto assim.

Ele: Ah, Luiza. Esse, não.
Ela: Amor, é romântico.
Ele: Pô, muito parado. Coloca um de ação aí. Uma coisa mais pra cima.
Ela (sentando no colo dele): Ai, César. Esse filme é ótimo. Olha aqui, é um drama psicológico.
Ele: Drama? Peraí, não era romance?
Ela (ri): César, é bom. A crítica adorou.
Ele: Ih, a crítica gostou... vou acabar dormindo.
Ela: Amor?
Ele: Ah, Luiza, coisa mais down esses lances psicológicos...
Ela (séria): César, você precisa reeducar suas escolhas.
Ele: Reeducar minhas escolhas?
Ela: É. Ficar se prendendo a filmes do Eddie Murphy e do Steve Martin, acaba bloqueando a capacitação intelectual da pessoa.
Ele: Pô, mas eu adoro o Steve Martin.
Ela: Eu sei. Eu também gosto. Mas a questão não é gostar do Steve Martin. Mas sim o fato de assistir algo além do Steve Martin.
Ele: O Eddie Murphy.
Ela: Além do Eddie Murphy.
Ele: O Maz...
Ela (completa): E do Mazzaroppi.
Ele: ...
Ela: Você precisa ampliar seus horizontes.
Ele: Ampliar, é?
Ela: É. Dar mais credibilidade a outras produções mais artísticas.
Ele: Ah, Luiza, você sabe que eu acho essas coisas de arte um saco.
Ela: Mas devia dar uma chance. Assistir documentários, curtir a arte independente.
Ele: Arte independente, então... pra mim isso é coisa de maconheiro e viado.
Ela: Tenta, amorzinho.
Ele (com cara de quem está passando mal): Peraí.
Ela: Que foi?
Ele (tenta ser sútil): Sei lá... sabe quando você sente aquele desconforto que você fala?
Ela: Que desconforto?
Ele: Aquela sensação desagradável, sabe?
Ela: Não. Que sensação?
Ele (desiste): Aquela vontade de peidar, Luiza.
Ela: Ah... sei. Quer que eu te faça um chá?
Ele: Quero sim.
Ela (se levantando pra ir a cozinha): Eu volto já.
Ele: Melhor, me traz uma cerveja.
Ela (ri): Tá bom, mas não começa o filme sem mim, hein?
Ele (pega o telefone e liga para um amigo): Alô? John? Tá bom? Tô bem. Escuta, rapaz, você já assistiu esse filme aqui... é.... "Lembranças de uma noite fria"... é cult... independente e é sueco também. Sei.... sei... e qual o final?... hã... sei... sei... Tá. E o velho morre?... hã?... Tá. Valeu, garoto. Não, por nada. Só curiosidade. Tá. Ahã.
Ela (chega com a cerveja): Ué, quem era no telefone?
Ele: Engano.
Ela: Ah, tá... E aí, decidiu ver o filme?
Ele: Oh, amor. Sabe o que é? Eu... eu já vi esse filme.
Ela (irônica): Já viu, é?
Ele: Vi sim. Sério. Tá duvidando. A história se passa em 1957...
Ela: O filme é de 1957.
Ele: Por isso. Então.... Tem um velho, né... que.... é professor de medicina, e ele vai receber um prêmio na universidade pelos 50 anos de trabalho. Na viagem, ele começa a ter umas sacações, sabe... ele... recorda o passado e começa a viver uma crise existencial, sabe? Coisa bem artística... independente mesmo.
Ela: Ah, sei.
Ele: Eu só não vou contar tudo, porque... vai perder a graça, afinal você vai ter que assistir depois, né.
Ela: É...
Ele: Então... vamos ver o outro. O do Steve Martin.
Ela (sorrindo): Vambora.
Ele (acha o sorriso dela estranho): Então tá.
Ela: ...
Ele (prepara a sessão): Muito bom, esse filme. Você acredita que tem o Steve Martin e o Eddie Murphy juntos? Acredita nisso?
Ela (ainda com o sorrisinho irônico): ...
Ele (senta na cama, e abraça ela): Os dois no mesmo filme. Cara, isso é muito bom.
Ela: Muito bom mesmo.
Ele: Como?
Ela: Esse filme. O Steve Martin faz um um diretor de cinema que quer fazer um filme com um astro de cinema e não tem dinheiro... então ele monta um plano.
Ele: Plano, ah... sei. Alá, vai começar.
Ela: E ele faz o filme... hahahaha sem que o ator, que é o Eddie Murphy, claro, saiba. Ele contrata uma equipe toda e um dublê que no final é o irmão do Eddie Murphy... que é o Eddie Murphy mesmo. Mas no final, acaba que o filme é um sucesso e ele consegue tudo o que queria.
Ele (puto): ...
Ela: ...
Ele (olha pra ela com desprezo): Você.
Ela (sorrindo, mostra o celular pra ele): Eu também tenho os meus contatos, querido.