skip to main |
skip to sidebar
Ele suado, arrumando o lençol da cama. Ela sai do banheiro, molhada, enrolada em uma toalha.
Ele: ...
Ela: Vê pra mim.
Ele (se agacha, investigando por baixo da toalha dela): Deixe-me ver.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: E agora? Saiu?
Ele (levanta): Saiu sim.
Ela: Ai, graças a Deus. Eu não sabia que leite condensado era tão difícil de sair, até com água e sabão.
Ela sentada do lado da cama. Ele, atrás dela, ajoelhado em cima da cama, fazendo chapinha nela.
Ele: Sabe o que eu acho engraçado?
Ela: O quê?
Ele: Esse nome. Chapinha. Um tanto quanto desenvolto.
Ela (ri): O que é que tem?
Ele: Parece meio esdrúxulo e ao mesmo tempo tão singelo.
Ela (ri): ...
Ele: Que foi?
Ela: Engoliu um dicionário... é, ô papagaio?
Ele: Tô treinando meu vocabulário.
Ela: É mesmo, é?
Ele: É. O que achou?
Ela: Se nossas posições fossem inversas eu estaria quase vomitando em cima de você.
Ele: Ah, o que dizer de uma pessoa desviada do caminho cultural.
Ela: Agora chega, César. Já deixou de ser engraçado.
Ele: Fica quieta, Luiza. Aí, ó... vou acabar queimando sua orelha.
Ela: Então páaara.
Ele (apertando o aparelho em uma das mechas): Já parei.
Ela: ...
Ele: Putz...
Ela: O quê?
Ele: Você não lavou o cabelo direito.
Ela: Claro que lavei.
Ele: Não lavou. Tá todo cheio de condicionador aqui embaixo.
Ela (ironiza): Não estaria "pleno" de condicionador??
Ele (rápido): Não começa.
Ela: Mas eu lavei.
Ele: Tudo menos a nuca.
Ela: Ai, cacete, César. Você não vai me fazer voltar praquele chuveiro, vai?
Ele: Vai estragar todo o resto.
Ela: Então?
Ele: ...
Ela: ...
Ele (lamenta): Por que você não me deixou lavar seu cabelo?
Ela (pausa, depois sorri): Porque eu não tenho 4 anos de idade.
Ele: Ué... tú pagas uma fortuna no salão de beleza pras bichas ficar lavando seu cabelo. Por que eu não posso?
Ela: Peraí. Com as bicha é diferente. Eu não sou casada com nenhuma delas. E elas são bichas.
Ele: Então essa é a única questão que tu me ofereces: a sexualidade de quem mexe no seu cabelo?
Ela (já nervosa): Exatamente... homem que é homem não quer saber de ficar alisando cabelo de perua. Principalmente o homem que é meu.
Ele: Mas como tú és preconceituosa, hein, Luiza.
Ela (nervosa): Ai, César. Termina essa bosta desse cabelo logo e não me chateia com discussão ridícula. Que saco, eu tô atrasada.
Ele (continua): Ah, tu sabias muito bem que...
Ela (interrompe no grito): E pará de falar na segunda pessoa que isso tá me irritando.
Ele: ...
Ela: Parece português de botequim de esquina, tá louco...
Ele (baixinho): Tô treinando meu vocabulário.
Ela(bufa, irritada):
Ele: Aí, ó...
Ela (impaciente): O que foi agora?
Ele: Você mexeu... pegou muito perto da raiz. Vai enfraquecer.
Ela: Como assim? Eu vou ficar careca?
Ele: Não, se você lavar o cabelo agora.
Ela (olha pra ele): Ah, não. Eu tenho que tá na convenção daqui vinte minutos.
Ele (olha pra baixo): Então esquece raiz bem nutrida.
Ela (se levanta): Puta, mas que caralho, César. Eu te peço um favorzinho e você merdeia a coisa toda, não é?
Ele: Merdeia?
Ela (indo pro chuveiro): É. Tô treinando o MEU vocabulário.
Debaixo do edredom: dois sentados na cama. Em cima do edredom: caixinhas de comida chinesa.
Ele (quebra o biscoitinho) : "As pessoas que acreditam que um problema possa ser resolvido tendem a trabalhar para resolvê-lo". Viu só, Luiza?
Ela: O que você quer dizer com esse "viu só, Luiza"?
Ele: Nada.
Ela (ironiza): Nada, não. Quis dizer Tudo, né.
Ele: Amor, foi só um comentário.
Ela: César, você tem mania de fazer comentários, já percebeu?
Ele: E você tem mania de julgar todos os meus comentários, já percebeu?
Ela: ...
Ele: O que diz o seu?
Ela: Peraí... "Nada existe de mais frágil do que uma criatura iludida a seu próprio respeito".
Ele: Ah, tudo a ver com você.
Ela: Quê isso? Que "tudo a ver comigo"?
Ele: Criatura... frágil... iludida... sem respeito... ah, conheço essa.
Ela: Ah, César. Você não entendeu nada do que tá escrito aqui, né?
Ele: Amorzinho, eu nunca entendo.
Ela: Tá certo.
Ele: O meu único interesse em comida oriental é o franguinho com amendoim.
Ela: Xadrez.
Ele: Isso aí.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Vem cá, mas você acha que eu sou iludida? Digo... a meu próprio respeito.
Ele: Acho.
Ela: Sério?
Ele (rápido): Mas não é culpa sua.
Ela: Não?
Ele: Não.
Ela: Então de quem é? Sua?
Ele: Não... minha, não. Quê isso? Eu lá sou louco de mexer com o sentimento de uma criatura frágil como tu.
Ela: Então...
Ele: A culpa é da mídia televisiva.
Ela: De onde você tirou isso, César?
Ele: Ué, foi aquele cara que trabalha no departamento de marketing da empresa que você trabalha que disse naquela palestra sobre...
Ela (interrompe): Ai, César, você acredita em tudo o que te falam, homem?
Ele: Ué, aquilo era mentira?
Ela (pensa): Bem... Não, totalmente.
Ele (também pensativo): Hum...
Ela: ...
Ele: Vem cá, o que exatamente faz a empresa que você trabalha?
Ela: Não sei... sabe que acho que tem alguma coisa a ver com o ramo de tecnologia do governo?
Ele (surpreso): É mesmo, é?
Ela (incerta): Tenho a leve impressão.
Ele: Coisa grande, hein?
Ela: Nem fala.
Domingo de sol. Dia de praia, descontração, futebol, almoço em família. Aquelas coisas.
Nada é tanto assim.
Ele: Ah, Luiza. Esse, não.
Ela: Amor, é romântico.
Ele: Pô, muito parado. Coloca um de ação aí. Uma coisa mais pra cima.
Ela (sentando no colo dele): Ai, César. Esse filme é ótimo. Olha aqui, é um drama psicológico.
Ele: Drama? Peraí, não era romance?
Ela (ri): César, é bom. A crítica adorou.
Ele: Ih, a crítica gostou... vou acabar dormindo.
Ela: Amor?
Ele: Ah, Luiza, coisa mais down esses lances psicológicos...
Ela (séria): César, você precisa reeducar suas escolhas.
Ele: Reeducar minhas escolhas?
Ela: É. Ficar se prendendo a filmes do Eddie Murphy e do Steve Martin, acaba bloqueando a capacitação intelectual da pessoa.
Ele: Pô, mas eu adoro o Steve Martin.
Ela: Eu sei. Eu também gosto. Mas a questão não é gostar do Steve Martin. Mas sim o fato de assistir algo além do Steve Martin.
Ele: O Eddie Murphy.
Ela: Além do Eddie Murphy.
Ele: O Maz...
Ela (completa): E do Mazzaroppi.
Ele: ...
Ela: Você precisa ampliar seus horizontes.
Ele: Ampliar, é?
Ela: É. Dar mais credibilidade a outras produções mais artísticas.
Ele: Ah, Luiza, você sabe que eu acho essas coisas de arte um saco.
Ela: Mas devia dar uma chance. Assistir documentários, curtir a arte independente.
Ele: Arte independente, então... pra mim isso é coisa de maconheiro e viado.
Ela: Tenta, amorzinho.
Ele (com cara de quem está passando mal): Peraí.
Ela: Que foi?
Ele (tenta ser sútil): Sei lá... sabe quando você sente aquele desconforto que você fala?
Ela: Que desconforto?
Ele: Aquela sensação desagradável, sabe?
Ela: Não. Que sensação?
Ele (desiste): Aquela vontade de peidar, Luiza.
Ela: Ah... sei. Quer que eu te faça um chá?
Ele: Quero sim.
Ela (se levantando pra ir a cozinha): Eu volto já.
Ele: Melhor, me traz uma cerveja.
Ela (ri): Tá bom, mas não começa o filme sem mim, hein?
Ele (pega o telefone e liga para um amigo): Alô? John? Tá bom? Tô bem. Escuta, rapaz, você já assistiu esse filme aqui... é.... "Lembranças de uma noite fria"... é cult... independente e é sueco também. Sei.... sei... e qual o final?... hã... sei... sei... Tá. E o velho morre?... hã?... Tá. Valeu, garoto. Não, por nada. Só curiosidade. Tá. Ahã.
Ela (chega com a cerveja): Ué, quem era no telefone?
Ele: Engano.
Ela: Ah, tá... E aí, decidiu ver o filme?
Ele: Oh, amor. Sabe o que é? Eu... eu já vi esse filme.
Ela (irônica): Já viu, é?
Ele: Vi sim. Sério. Tá duvidando. A história se passa em 1957...
Ela: O filme é de 1957.
Ele: Por isso. Então.... Tem um velho, né... que.... é professor de medicina, e ele vai receber um prêmio na universidade pelos 50 anos de trabalho. Na viagem, ele começa a ter umas sacações, sabe... ele... recorda o passado e começa a viver uma crise existencial, sabe? Coisa bem artística... independente mesmo.
Ela: Ah, sei.
Ele: Eu só não vou contar tudo, porque... vai perder a graça, afinal você vai ter que assistir depois, né.
Ela: É...
Ele: Então... vamos ver o outro. O do Steve Martin.
Ela (sorrindo): Vambora.
Ele (acha o sorriso dela estranho): Então tá.
Ela: ...
Ele (prepara a sessão): Muito bom, esse filme. Você acredita que tem o Steve Martin e o Eddie Murphy juntos? Acredita nisso?
Ela (ainda com o sorrisinho irônico): ...
Ele (senta na cama, e abraça ela): Os dois no mesmo filme. Cara, isso é muito bom.
Ela: Muito bom mesmo.
Ele: Como?
Ela: Esse filme. O Steve Martin faz um um diretor de cinema que quer fazer um filme com um astro de cinema e não tem dinheiro... então ele monta um plano.
Ele: Plano, ah... sei. Alá, vai começar.
Ela: E ele faz o filme... hahahaha sem que o ator, que é o Eddie Murphy, claro, saiba. Ele contrata uma equipe toda e um dublê que no final é o irmão do Eddie Murphy... que é o Eddie Murphy mesmo. Mas no final, acaba que o filme é um sucesso e ele consegue tudo o que queria.
Ele (puto): ...
Ela: ...
Ele (olha pra ela com desprezo): Você.
Ela (sorrindo, mostra o celular pra ele): Eu também tenho os meus contatos, querido.
Ele chega em casa, tarde da noite, todo suado. Ela acorda com ele entrando no quarto, na ponta dos pés.
Ele: ...
Ela: Recordou-se do caminho de volta pra casa?
Ele: Vixe... "recordou-se"??... me fudi!
Ela (acende a lâmpada do abajur): ...
Ele: Eu não queria te acordar.
Ela: E tú achas que eu consegui dormir com você fora de casa até essa hora?
Ele (acende a luz do quarto): Ah, Luizaaaaaaa...
Ela: "Ah, Luiza", não! Onde é que você esteve, César? Você tem noção de que horas são? Sai assim... sem dar uma explicação pra mim... Olha aqui, celular desligado, fora de área. Liguei pra sua mãe, pro seu primo, até pra sua irmã, meu querido... e nada... nenhum sinal.
Ele: Olha o exage....
Ela (interrompe): César, você reconhece as suas obrigações de marido comigo? Tem noção de como eu me sinto, sem saber onde você anda essa hora da noite, numa cidade perigosa como essa?...
Ele: Amor, eu...
Ela (interrompe): Você por acaso sabe o que está se passando nessa casa, César? Sem dar uma satisfação....
Ele: ...
Ela: Hã?
Ele: Posso falar?
Ela: Agora!
Ele: Eu tava no treino.
Ela: Treino?! Que treino?
Ele: Ué, o futebol dos casados contra os solteiros. Pelada da firma.
Ela: Ah, conta outra, César.
Ele (ri): Ué... é sério, Luiza.
Ela: Desde quando?
Ele: Ué, toda quarta. Peladinha da firma.
Ela: Conheço bem essa "peladinha da firma". A Dona Sueli, secretária do Irineu.
Ele (rindo): Luiza... pára com isso, meu amor.
Ela: César, não toca em mim.
Ele: Amor, eu precisava ir nesse jogo.
Ela: Por que "precisava"?
Ele (tirando os sapatos): Ué, pra me incluir dentro do círculo da sociedade de amigos e trabalhadores da firma.
Ela: Sei sim.
Ele: Luiza, vai dizer que isso não melhora a imagem da gente? Vai dizer que você gosta de ir naqueles jantares "chatos-pra-dedéu" que a alta comissão do seu escritório te convida?
Ela: Eu sabia que você ia falar do jantar do meu chefe.
Ele (tirando a camiseta): Ué, isso já não é novidade.
Ela: Você foi inoportuno.
Ele: Não fui, não. A mulher do seu chefe que tava dando em cima de mim.
Ela (levanta a voz): Porque você é ignorante.
Ele: A mulher vem me oferecendo a "brusqueta" pra mim na boa... o que você quer que eu entenda?
Ela (furiosa): Era brusqueta a napolitana, César.
Ele: Eu percebi... mas só depois de ela ter me enfiado a mão na cara.
Ela: Ai. Difícil, viu...
Ele: ...e doído.
Ela: César, você tá fedendo. Vai tomar banho.
Ele (entrando no banheiro): Mas ainda afirmo que a culpa não foi minha.
Ela: Por isso a gente precisa ir a tantos eventos assim. Pra fazer os outros esquecerem desse vexame passado.
Ele: Eventos?... Chato-pra-dedéu.
Ela: Por que você não me diz logo que não gosta desses meus encontros profissionais?
Ele: Há anos que eu te digo isso.
Ela: Então por que vai?
Ele: Porque você faz questão de me levar pra essas festas chatas.
Ela: Chatas, é?
Ele (pegando uma toalha no armário): Pra-dedéu.
Ela: Da próxima vez, eu vou jogar pelada com os meus amigos do escritório, tá bom assim? Bem mais divertido, não acha?
Ele: Peraí, você vai jogar pelada, ou vai jogar "pelada"?
Ela: Amorzinho, realmente não é a hora pra trocadilho cesariano, tá?
Ele: Luiza, você ficou acordada até essa hora só pra me aporrinhar?
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Quer saber, César? Eu vou fazer uma coisa que vai de encontro às regras desse blog maldito.
Ele (rindo): O quê?
Ela: Vou dormir no sofá.
Ele (a impede): De jeito nenhum.
Ela: O q...
Ele: Eu não permitirei.
Ela: Como ass...?
Ele: Eu não vou deixar que uma simples TPM e umas horas de atraso em um lazer, digno de quem é trabalhador, destrua uma relação estável na cama.
Ela: TPM? Relação estável?
Ele: É.
Ela (ri): ...
Ele: Que foi?
Ela (irônica): Oh, meu amor.... Sabe quando você vai provar da brusqueta de novo?
Ele: Olha, Luiza. Eu acho que isso não é hora para trocadilhos luizianos, tá?
Ela (desiste e volta pra cama): Vá tomar banho, César. Você tá fedendo.
Sábado à Noite. Ele sai do banho, se arrumando, todo perfumado. Ela, com pipoca no colo, pronto para ver um filme.
Ela: César.
Ele: Oi, amorzinho.
Ela: Tá indo aonde?
Ele: Eu?
Ela: É, você.
Ele: É que... oooo.... por causa daaaa.... eu vou. Na verdade...
Ela: Ah, meu amor, se for pra mentir, pensa rápido, pelo menos. Isso conta pontos com mulher otária.
Ele: Que mentira? Eu por acaso sou homem de mentir?
Ela: Ué, tá parecendo um papagaio gago com soluço, aí.
Ele: ...
Ela (grita): Então?
Ele: Fala baixo.
Ela: Ih, aí tem coisa, César. Não vai me contar aonde vai?
Ele: Você não vai gostar.
Ela (grita novamente): Aonde você vai, César Mariano?
Ele (fica vermelho de raiva): ...
Ela (além de vermelha, quase babando): ...
Ele: Você sabe que eu fico puto da vida quando me chamam assim.
Ela: E você sabe que eu só te chamo assim quando EU tô puta da vida.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Eu vou numa despedida de solteiro.
Ela: De quem?
Ele: Do Maurão.
Ela: Mas o Maurão não casou na semana passada?
Ele: Pois é. Só que ele casou sem despedida...
Ela: E aí vocês vão levá-lo para a gandaia como um consolo, já que ele afundou a vida dele no matrimônio?
Ele: "Afundou no matrimônio"!! Você fala como se o casamento fosse uma punição.
Ela: Tá quase, amorzinho. Tá quase lá.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Então?
Ela: Quê?
Ele: Posso ir na despedida de solteiro?
Ela: Pode... ir... pro inferno.
Ele (animado): Mesmo?
Ela: Sem volta.
Ele (beija a esposa): Você sabe que eu volto.
Ela: Fazer o quê? Tá no contrato, assinado, com testemunha. Dizem que é pra vida toda.
Ele: Pára com isso, Luiza.
Ela: César, você não tava saindo?
Ele: E você vai fazer o que, hoje?
Ela: Sei lá. Eu vou assistir um filme, ou vou ler um pouco, ou vou ligar pra Selma e convidá-la pra sair.
Ele: Sair com a Selma?
Ela: É. tava pensando em ir numa boate, daquelas de beira de estrada, sabe?
Ele: Lotada de prostitutas de segunda mão?
Ela (rindo): E caminhoneiros suados, peludos e entupidos de esperma!
Ele: Parece legal. Posso ir junto?
Ela entra no quarto e não encontra metade dos móveis. A cama, metade limpa, metade cinzas.
Ela: César!
Ele (sai do banheiro): Lu-i-za!
Ela: O que... como... o que aconteceu aqui?
Ele: Um pequeno incêndio.
Ela: Pequeno?
Ele: Aparentemente.
Ela: Como?
Ele: Os bombeiros ainda acham...
Ela (interrompe): Bombeiros?
Ele: Na verdade, um bombeiro. Na verdade, foi o Jeremias, irmão do porteiro, que acha...
Ela: Ele é bombeiro?
Ele: Mais ou menos. Ele tem diploma de torneiro-mecânico e especialidade em primeiro-socorros... ele me explicou mas eu não entendi direito...
Ela (interrompe de novo): César, o que houve aqui?
Ele: Parece que tudo começou pela cortina.
Ela: A cortina pegou fogo?
Ele: Foi.
Ela: Como?
Ele: Aí é que tá. Eu tava preparando uam surpresa pra você.
Ela: Que surpresa? Um arraiá na minha cama?
Ele: Não, bobinha.
Ela: Então o que era?
Ele (envergonhado): Um luau.
Ela: Dentro do quarto?
Ele: Na verdade, era mais um jantar a luz de velas.
Ela: Eu repito a pergunta, César. "Dentro do quarto?"
Ele: Ué, Luiza. A gente não faz nada fora desse quarto mesmo. Tudo o que a gente faz é aqui. A gente conversa, come, bebe, assiste TV, lê, fala ao telefone, transa, come depois transa, enfim... qual o problema?
Ela: Pois é. Olha só, agora. Eu sabia que um dia isso não ia dar certo.
Ele: O quê?
Ela: Nós, dois, nesse quarto. O tempo inteiro. Nessa cama.
Ele: Tá dizendo que tá cansada disso?
Ela: Não, eu to dizendo que a gente precisa mudar, César.
Ele: Bom, a gente vai ter que mudar de cama mesmo, porque essa aqui, só sobrou a metade.
Ela: Não, César. A gente precisa mudar de ambiente.
Ele: Como assim?
Ela: Sair um pouco desse quarto. Passar mais tempo na sala, na cozinha.
Ele: Eu não sei se eu tô preparado pra Cozinha.
Ela: É preciso.
Ele: Por que é preciso?
Ela: Porque sim.
Ele: Por quê?
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Porque o nosso relacionamento está caindo na rotina.
Ele (ri): Relacionamento caindo na rotina... pois bem... eu desviei da rotina hoje... coloquei fogo no quarto todo.
Ela: Eu tô falando sério, César.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Luiza, eu entendo sua preocupação.
Ela: Obrigada, meu bem.
Ele: Mas você acha mesmo que nós dois e uma cama, todos os dias juntos, quer dizer que o nosso casamento está rotineiro?
Ela: Acho.
Ele (abraça ela): Oh, meu amor.
Ela (sorri nos braços dele): ...
Ele (rindo e falando mansinho): Você tá ficando maluca, sabia?
Ele chega em casa, esbravejando. Ela lendo.
Ele: Filho du-ma pu-ta!
Ela: ...
Ele: Caralho, que merda.
Ela (olha pra ele e volta a ler): ...
Ele: Vá tomá nu...
Ela (interrompe): Que foi, hein, César?
Ele: Essa cidade. Esse trânsito. Eu já não agüento mais!
Ela: Ah, é só isso?
Ele (pasmo e mortificado): Sóó??!!
Ela (olha pra ele e volta a ler): ...
Ele: Cidade desgraçada!
Ela: Un-hu...
Ele (gritando): É por isso que, um dia, eu ainda vou fugir dessa merda toda. Vou pra bem longe... lá pro cú do mundo, onde não tenha nenhum filho da puta, buzinando na minha idéia!
Ela (lendo): ...
Ele: Oooh, vidinha mais ou menos, viu!!
Ele chega em casa e a encontra chorando, em cima da cama.
Ele: Que foi?
Ela: ... nada, amor.
Ele: Ué, então por que tá chorando?
Ela: Cinco anos, César.
Ele: Quê?
Ela: Cinco anos que eu tô nessa... e eu não sonsigo superar.
Ele: Vixe, já sei. Andou assistindo aquela fita de novo?
Ela (soluçando): An-hã
Ele: O meu amor, por que você faz isso?
Ela: Porque poderia ter sido tão lindo.
Ele: Mas foi, meu bem.
Ela: Ah, você é mesmo maravilhoso.
Ele: Por que você assiste isso, sabendo que vai ficar triste depois?
Ela (se lamentando): Eu sou fraaaaca.
Ele: Oh, meu Deus.
Ela: Há cinco anos, eu luto contra esse vício.
Ele: Pára de assistir essa fita, então.
Ela: Como?
Ele: Sei lá, parando.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Queima essa fita, César.
Ele: Queimar?
Ela: É, queima. Só assim eu conseguirei parar de assistir.
Ele: Mas, Luiza. É uma lembrança nossa. Pra vida toda.
Ela: Uma lembrança não-boa.
Ele: "Não-boa". Então você acha nosso casamento é ruím?
Ela: Eu disse "não-boa", eu não disse "ruím". E eu disse "lembrança", eu não disse "casamento".
Ele: É só parar de assistir!
Ela: Vou tentar.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Isso ainda vai te fazer mal.
Ela: Desliga pra mim?
Ele: Claro.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Lembra dos sininhos cor-de-rosa?
Ele (desliga a TV): Lembro.
Ela: Lembra das flores?
Ele (senta na cama): Azuis, lindas.
Ela: E da recepção com aquela estátua de gelo?
Ele: Lembro, meu bem.
Ela: E da Dona Celestiana cantando fado, lembra?
Ele: Também.
Ela: E a toalha de mesa avermelhada?
Ele: Lembro.
Ela (se joga na cama, se debulhando em lágrimas): Ai, que festa de casamento breeeegaaa...
Oito horas da noite. Eles chegam de viagem. Ele desarrumando as malas. A cama, uma bagunça. Cheia de roupas espalhadas. Ela, quieta e misteriosa.
Ele: Amor, você guardou aqueles meus anzóis pontudinhos?
Ela: Hã?
Ele: Meus anzóis? Os pontudinhos?
Ela (aérea): Peraí... eu não ouvi o começo da piada.
Ele: Que piada, mulher? Tá maluca?
Ela: Hein?
Ele: ... meus anzóis... de pesca... Vc viu?
Ela: Ah, tá.... é... Desculpa, eu não vi...
Ele: Tá tudo bem com você?
Ela: Ué... tá. Não tá vendo?
Ele: Ihh...
Ela: Ih, o quê?
Ele: Nada. Aqui... achei os anzóis.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Vem cá. E as iscas artificiais?
Ela (desligada): O quê, César?
Ele: As iscas?
Ela: Sei lá. Deve tá na mala pequena.
Ele (procurando): Mala pequena?!... Deve tá no banheiro.
Ela (dobrando umas camisetas): ...
Ele (volta do banheiro): Achei.
Ela: ...
Ele: Viu a vara?
Ela (grita): Eu não vi nada. Ele tava de costas.
Ele: Hã?
Ela: Hein?
Ele: Que costas?
Ela: De quem?
Ele: Você falou aí.
Ela: Falei?
Ele: Quem tava de costas, Luiza?
Ela: Ai, César. Pra começar, eu nem queria ir visitar seus pais. Foi você quem insistiu.
Ele: Ah, Luiza. Pra começar, você vai ter que começar de outro jeito, porque eu não entendi... naaada.
Ela: Ai, caramba.
Ele (sentado na cama): Fala, Luiza.
Ela: Não quero...
Ele: Vem cá. Senta aqui.
Ela (senta) Aiii!
Ele: O quê?
Ela: Achei outro anzol.
Ele: É um dos pontudinhos?
Ela: Se não for, eu é que não quero pescar contigo.
Ele (rindo): Dá aqui.
Ela: ...
Ele: Fala, agora.
Ela: Ai, César. Foi o seu pai.
Ele (sorrindo): Que tem meu pai?
Ela: Eu o vi... nu.
Ele (desfaz o sorriso): Comé?
Ela: Eu entrei no nosso quarto... bem, não no noooosso quarto... no quarto que a gente estava hospedado...
Ele (interrompe): Eu entendi.
Ela: E... vi.
Ele: O meu pai pelado?
Ela: É.
Ele: De costas?
Ela (sem graça): É.
Ele (ri): Ah, amor, tá tudo bem.
Ela (irônica): Não, não tá.
Ele (rindo): Tá, sim. Eu não fico zangado por você ter visto a bunda do meu pai.
Ela (meio emputecida): E você acha que eu estou lá preocupada com a sua opinião e o seu estado de alegria por saber disso?
Ele: Ah, não?
Ela: Não!
Ele: Então por que tá grilada?
Ela: Por que eu não consigo tirar essa imagem da minha cabeça.
Ele (sorri): Luiza... é apenas... uma... bunda!
Ela (irônica): Ah, não é.
Ele: Por quê? Você viu algo mais, é?
Ela: An-hã!
Ele: O que foi? Viu o pinto do meu pai também?
Ela: Antes fosse!
Ele (ri): Viu a bunda da minha mãe?
Ela: Antes fosse!
Ele: Então?...
Ela: Eu não vou te contar. Você vai ter pesadelos pro resto da sua vida, se conseguir imaginar o que se passa dentro da minha cabeça.
Ele: Então não conta.
Ela: Ah, eu conto.
Ele: ...
Ela: Eu não só vi o seu pai de costas... com a... buuuunda de fora, como também percebi a sua mãe, de joelhos, em frente ao seu papai fazen...
Ele (interrompe, gritando): Caaalllaaaaaa...
Ela (rindo): ...
Ele (em estado de choque): Você viu?
Ela: Vi.
Ele (gagueja): Mas... o... quer dizer.... o... caaaaraaaalhu!
Ela (sorrindo): É... No beiço da vovó.
Ele: Gente... eu pensei que meus pais não faziam isso.
Ela (ri): ...
Ele (percebe a risada dela): ...
Ela (percebe que ele percebe que ela tá rindo e ri mais ainda): ...
Ele (olha pra ela): Você planejou essa encenação toda durante a viagem de volta pra casa, pra chegar aqui, me contar tudo isso e chorar de rir da minha cara de babaca, não foi?
Ela (gargalhando): Hahahaha. Foi.
Ele: Agora você vai ver.
Ela: O que você vai fazer?
Ele: Vou te apresentar o anzol pontudinho.
Ela: Peraí, César. Eu tava brincando.
Ele: Isso não tem graça.
Ela: Ah, César, admita que se você pegasse meus pais na mesma "posição" você iria fazer piada, vai?
Ele (puto): Precisa mencionar "a posição"? Precisa me fazer visualizar a cena?
Ela (rindo): Tá bom. Não precisa ficar zangado.
Ele: ...
Ela: Me desculpa, amor.
Ele: Não.
Ela: ...
Ele: ...
Ela (rindo): E se eu ficar "de joelhos", você me perdoa?
Ele: Ai, cacete.
Ele deita na cama e começa a beijá-la.
Ela: César.
Ele: Hum...
Ela: É qui...
Ele (pára toda a sessão): Que foi?
Ela: Eu não tô preparada.
Ele: Ué. Agora que acabou a novela... Não tá afim?
Ela: Tô. Claro que eu tô.
Ele: Então?
Ela: É que eu tô meio bolada.
Ele (rindo): Eu, hein, Luiza? Anda frequentando baile funk, é? Tá ficando boladona?
Ela (irônica): E o juri dá nota 6 para o macaco falante!
Ele: Já entendi. Sem piada, né?
Ela: É.
Ele: Mas o que aconteceu?
Ela: É... é o Zé Mayer.
Ele: ...
Ela: Ele brigou com a Regina Duarte na novela.
Ele: Sei.
Ela: Ai, fiquei tão triste com a última cena dos dois se despedindo.
Ele (emputecido): Uhn...
Ela: Ah, que situação.
Ele: Luiza, meu bem. Eu te amo, né. Você sabe disso?
Ela: Claro que sei, meu amor.
Ele: E eu, como seu marido, acho que posso ser honesto, inclusive... expor os meus sentimentos pra você.
Ela: Claro, meu bem.
Ele: Sendo assim, você está ciente de que tudo o que é dito ou feito nessa relação a todo momento, é um mérito de quem leva a vida a dois?
Ela: Dois na cama?
Ele (ri): Isso.
Ela: Entendo.
Ele: Então, assim sendo, eu lhe pergunto... meu bem... que porra toda é essa?
Ela: Que foi, César?
Ele: Que história é essa de Regina Duarte?
Ela: Amor...
Ele (interrompe): A mulher leva um toco e sou eu quem sai no prejuízo?
Ela: César, a mulher tá sofrendo. Isso mexe com a gente. Você não entende nada do organismo feminino.
Ele: Luiza, isso é uma novela.
Ela: César, é uma novela baseada em fatos reais.
Ele: Mesmo assim, ainda não me comovo.
Ela: Você não assiste. Não presta atenção. Por isso não dá a mínima.
Ele (irritado): Não dou a mínima mesmo. Porque eu odeio novela... aliás pra mim, escritor de novela é um cara que não come ninguém, e vive trancado em casa em frente ao computador escrevendo histórinhas pra mexer com o organismo feminino da mulher da gente e fazê-las desistir de dar pra gente.
Ela: Não seja machista, César. Que coisa feia.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Já passou?
Ela: O quê?
Ele: O efeito Ze Mayer aí?
Ela: Não.
Ele: Saco!
Ela: Você devia assistir. Assim, ia ver que não estou exagerando.
Ele: Me conta, então. Me diz como foi o rompimento entre o Zé e a Regina.
Ela: Tá de palhaçada ou tá falando sério?
Ele: Sério.
Ela: Tá... ele descobriu que ela é filha dele, assim, teve que abandoná-la, renunciando uma grande história de amor para não viver uma vida afundada em pecados.
Ele: Ele é pai dela?
Ela: Ahã.
Ele: O Zé Mayer é pai da Regina Duarte?
Ela: É. Na novela.
Ele: Como é possível uma coisa dessas?
Ela: Ai, César. É que o Zé Mayer foi congelado depois de deixar uma garota grávida. Anos depois ele foi descongelado e conheceu a Regina, e se apaixonou sem saber que ela era sua filha.
Ele: ...
Ela: Que foi?
Ele: Isso é baseado em histórias reais, Luiza?
Ela (sem graça): Hã... é...
Ele: Eu vou dormir.
Ela: Ué, não quer mais transar?
Ele: Não. Agora eu fiquei deprimido.
Ela: Por causa da história do Zé e da Regina na novela?
Ele: Não. Por causa da história do Zé e da Regina na vida real mesmo.
Ela chega em casa, tarde da noite, e o encontra de malas prontas em cima da cama.
Ela: Oi.
Ele: ...
Ela: Que malas são essas, César?
Ele: São minhas.
Ela: Isso eu já sei, mas por que elas estão em cima da cama? Você tá indo pra algum lugar?
Ele: Tô indo embora.
Ela: Vixe... é alguma brincadeira sua, César? Daquelas que eu não entendo?
Ele (sério): Não.
Ela: Tá me assustando.
Ele: Depois eu passo pra pegar meu disc-man e o papagaio.
Ela (grita): Ei.
Ele (pára): ...
Ela: Você não acha que eu mereço uma explicação?
Ele: Digamos, que eu descobri primeiro.
Ela: Primeiro???!
Ele: Eu sei de tudo, Luiza.
Ela: Tudo "o quê", criatura de Deus?
Ele (desabafa): Você anda me traindo!
Ela: César, que idéia estapafúrdia é essa?
Ele: Quê?
Ela: Ai... De onde você tirou isso, meu bem?
Ele (grita): Da sua gaveta!
Ela: Minha gaveta?
Ele: É.
Ela: O que tem na minha gaveta?
Ele: O que tem? O que tem lá dentro?
Ela: É.
Ele: "O que tem dentro da sua gaveta?"
Ela: Agora você tá me irritando.
Ele: O que tem lá dentro? Eu te digo. Uma coisa desagradável, coisa de gente baixa.
Ela: O que é?
Ele: Um negócio mole, roliço, nojento...
Ela (caindo a ficha): Ah, minha mãe!
Ele: Não... não era sua mãe, não. Era coisa muito pior!
Ela: César, aquilo...
Ele: É... aquilo.
Ela: César, eu posso explicar.
Ele: Luiza, por acaso você não gosta mais do meu pinto, é?
Ela: O que tem a ver o seu pinto com isso?
Ele: Quer dizer que você está descartando o meu pinto, permanentemente?
Ela (indignada): Eu adoro o seu pinto.
Ele: Então porque anda programando estepe?
Ela: Hã? César, não é nada disso, meu bem. Aquilo eu ganhei no trabalho.
Ele: Ah, conta outra.
Ela: Me deixe explicar.
Ele: Vai tentar me enrolar?
Ela (apela): Olha, pra mim chega. Sentaí. Você vai me ouvir.
Ele: Eu nã...
Ela: Nem um pio. Senão eu pego aquele salaminho e enfio no teu...
Ele: Salaminho?
Ela: Ahn?
Ele: É salame, aquilo que tá na gaveta?
Ela (abrindo a gaveta do armário): É, eu ganhei uma cesta de um clien... nossa, tá todo mofado! Que coisa horrível.
Ele: ...
Ela: Por que você ficou todo horrorizado?
Ele: ...
Ela: Peraí, você disse que eu tava te traindo.
Ele: Hein?
Ela: Césa-ar.
Ele: Eu pensei que fosse outra coisa.
Ela: Você achou que eu andava colocando aquilo na...
Ele (abaixando a cabeça): Ah, meu Deus.
Ela: ...
Ele: ...
Ela(rindo): Coisa de gente baixa, César.
Ele (envergonhado): Foi o que eu pensei.
Ele (no telefone): Porra, se não é o Kaká, hein, cara.
Ela (revirando o quarto, procurando alguma coisa): ...
Ele: Telão? Plasma? Roubou de quem?
Ela: César...
Ele: (ainda no telefone): E a cervejinha? Vai rolar?
Ela (jogando todas as almofadas no chão): César...
Ele: Pois é. Depois a gente bebemora.
Ela: Césa-ar!...
Ele: Pera um pouquinho Ulysses.... Que foi, Luiza?
Ela: Você viu aquela minha pasta... aquela onde eu guardo meus memorandos?
Ele: Aquela preta?
Ela: É.
Ele: Com uma listra dourada?
Ela: É.
Ele: Não. (volta pro telefone) Então, mas a gente combina e assiste lá com o pessoal no bar do Elias... levo... o violão tá a caminho.
Ela: Césaaaar....
Ele: Podexá...
Ela: César!!
Ele: Ô Ulysses, eu vou ter que desligar. A Luiza tá chata... É... tá... manda um beijo pra Célia. Tá bom, mando sim. Um abraço. Tchau.... (olha pra ela) O que-qui-é, cacete?
Ela: Eu não acho minha pasta.
Ele: E...
Ela: Me ajude a procurá-la!
Ele: E lá fui eu quem perdeu a pasta?
Ela: Você tem duas opções: ou você me ajuda...
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Ou?...
Ela: Ou "o quê"?
Ele: Você disse que eu tinha duas opções.
Ela: Você tem certeza que quer ouvir a segunda?
Ele: É palavrão?
Ela: Não.
Ele: Já sei. Vai defecar em algo que eu considero valioso de novo?
Ela: Eu nunca fiz isso.
Ele: Mas já pensou.
Ela: Credo, César.
Ele (ollhando pra ela): ...
Ela (olhando pra ele): ...
Ele: Ai, tá bom. Tá no armário, na segunda gaveta.
Ela: Você escondeu minha pasta?
Ele: Guardei.
O telefone toca.
Ela: E me deixou procurando, quem nem uma retardada?
Ele: Amorzinho, eu tava no telefone... ó, tá tocando.
Ela: A gente precisa conversar sobre isso.
Ele: Posso atender o telefone antes?
Ela: Pode ir até pra puta-que-pariu, mas antes vai me esclarecer...
Ele (interrompe): Você fala assim com os seus clientes, Luiza?
Ela: Céééésaaaar, você me conhece... não atende.
Ele: Vou atender.
Ela: Não faça isso.
Ele: Pode ser uma emergência.
Ela: Ou pode ser o Ulysses, falando do resultado do jogo da Ucrânia contra a Angola?
Ele: A Ucrânia não jogou contra a Angola.
Ela (grita): César!
Ele: Ah, puta merda, eu vou atender.
Ela: Nã...
Ele: Alô? Oi. Ela tá. (estende o telefone pra ela)
Ela: Quem é?
Ele: Sua mãe.
Ela: Me dá.
Ele: ...
Ela: Oi , mamãe.
Ela fica duas horas no telefone com a mãe. Ele aproveita o tempo para tomar banho, escovar os dentes, se preparar para dormir. Mas não antes de esconder a pasta dela novamente.
Depois da transa.
Ela: César, jogue as cinzas no cinzeiro.
Ele: Cadê aquele que tem formato de golfinho?
Ela: Você devia parar de fumar.
Ele: Cadê o golfinho?
Ela: Sei lá.
Ele: Olha aí.
Ela: Eu não. Quem tá fumando é você.
Ele: Luiza, procura pra mim.
Ela: Não!
Ele: Então, eu vou queimar o edredom do enxoval.
Ela (irônica): Ah... tá bom.
Ele: Eu vou mesmo, hein.
Ela: Faz isso que eu mijo no seu violão.
Ele (faz cara feia): ...
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Exagerei, né?
Ele (indignado): Poorra!
(Para Júlia Vanini e Priscila Ihara, obrigado por tudo.)
Ela se preparando para dormir. Ele entra no quarto.
Ele: Oi.
Ela (se aconchegando no cobertor): Oi.
Ele: ...
Ela: ...
Ele (entra debaixo da coberta): Luiza, eu vou parar de usar chinelo.
Ela: Por quê?
Ele (apaga a luz do abajur): Lembra daquela vez que a gente transou dentro da piscina do prédio da minha irmã?
Ela: Ai, foi horrível.
Ele: Não, aquela outra vez.
Ela: Ah, aquela foi boa.
Ele: Então...
Ela: O que isso tem a ver com a desistência da chinela?
Ele: Lembra daquele espelhão que tem no vestiário?
Ela: Cacete, quantas lembranças para uma explicação.
Ele: Lembra ou não, porra?
Ela: Uhn...
Ele: Então, quando eu saí da piscina e me vi nu, com o pinto enrugado e de chinelinha havaiana azul, me achei ridículo.
Ela: Ai, César. você acha que parando de usar chinelo, o seu problema vai se resolver?
Ele: Não vai?
Ela: Claro que não. Qualquer homem fica ridículo quando sai da piscina com o pinto enrugado.
Ele: Olha, pode parecer ridículo, mas eu tô me sentindo bem melhor depois disso tudo que você me falou.
Ela: É. Ridículo!
Ele zapeando os canais pelo controle remoto, como de costume. Ela, concentrada no trabalho, com documentos espalhados pela cama toda.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Ai, César. Eu odeio essa sua mania.
Ele: Foi você quem me deu aquele remédio pra eu tomar.
Ela: Que remédio, homem?
Ele: Aquele que "alivia" os gases.
Ela: Eu não tô falando da mania porca.
Ele: Ah, não. Então tá falando de qual?
Ela: Tava falando dessa sua mania de ficar mudando de canal 546 vezes por noite.
Ele (piadista): Você contou?
Ela: Não me enche.
Ele: Ah é, e quem tá enchendo aqui?
Ela: Não dá pra parar num canal. Tem que ficar apertando essa merda desse controle.
Ele: Não tem nada na TV.
Ela: Ah, tem sim.
Ele: ...
Ela: Não tem futebol hoje?
Ele: Não, hoje é segunda.
Ela: E a novela?
Ele: Eu já sei o que vai acontecer. Uma cliente me contou.
Ela: Ué, e daí? Vê mesmo assim. Eu sempre leio antes o que vai acontecer e mesmo assim vejo a novela.
Ele: Eu prefiro zapear os canais.
Ela: César, tá me atrapalhando.
Ele: Eu hein, Luiza. Cama é descanso, não é labuta. Quer trabalhar, vai lá pra sua empresa, vai.
Ela: Eu não acredito nisso.
Ele: ...
Ela: César?!...
Ele (zapeando canais): ...
Ela: E o telejornal? Coloca no telejornal.
Ele: Oh, Luiza. Quer parar com isso?
Ela: Ai, César. Será que eu vou ter que esconder esse controle remoto?
Ele (ri): Ah, tá bom. Vai me tratar como uma criança de sete anos, agora? Vê se pode.
Ela pega o controle e joga pela janela.
Ele (debruça na janela, depois vira pra ela): Caralho, viu!
Ela: Você pediu.
Ele (senta na cama): ...
Ela: ...
Ele: E agora?... agora, o que é que eu vou fazer?
Posição rara: dois sentados na cama, lendo. Ele olha pra ela e volta a ler. Ela faz o mesmo, em seguida.
Ela: ...
Ele: ...
Ela: César.
Ele: Oi...
Ela: Você já reparou numa coisa?
Ele: No quê, meu amor?
Ele: Quando a gente fica sem assunto, ou quando há uma pausa entre as nossas conversas, sempre aparece aqueles "três pontinhos".
Ele: Como assim?
Ela: ...
Ele: ...
Ela: Viu só.
Ele: Ah, sei. Os "três pontinhos".
Ela: Então... você não acha estranho?
Ele: Não, já me acostumei.
Ela: Pois eu não.
Ele: Meu amor, esse é só um jeito do cara escrever a nossa história.
Ela: Que cara? Tem um cara por trás dos "três pontinhos"?
Ele: Tem. O Giu.
Ela: É ele quem escreve tudo isso?
Ele: É. Ele escreve, aí o pessoal que entra no blog lê, comenta, e a gente fica conhecido.
Ela: Sério? Quer dizer que eu tô ficando famosa?
Ele: Não força a barra, né, Luiza.
Ela: ...
Ele: Aí, viu... já tá se acostumando com os "três pontinhos".
Ela: É... pensando bem... até que não é tão esquisito assim.
Ele: Por falar em esquisito, hoje é aniversário do Giu.
Ela: Do cara que escreve?
Ele: É.
Ela: Ih, seria melhor se a gente comprasse um presente pra ele.
Ele: Ah, eu não vou comprar, não. Nem conheço esse cara direito.
Ela: Mas ele te conhece muito bem.
Ele: Então, ele que me dê presente no meu aniversário.
Ela: Puta que pariu, né, César. O cara tá contando a nossa história.
Ele: Eu nunca pedi para que ele contasse. Tá fazendo isso porque quer.
Ela: César, o cara nos deu os "três pontinhos", né, amor... olha a falta de reciprocidade.
Ele: Reciprocioquê?
Ela: Não muda de assunto. Pelo menos dá um telefonema a ele.
Ele (bufando): Ai, tá bom, tá bom.
Ela: Muito bem.
Ele: (pegando o notebook): Vou mandar um scrap pelo orkut.
Ela: De novo essa bosta desse orkut.
Ele: Orkut não cobra tarifa pro Rio de Janeiro.
Ela: É. Então manda, vai.
Ele: ...
Ela: ...
Ele: Quer saber? Esses "três pontinhos" já tão me enchendo o saco.
Ela: Eu ia falar isso agora.
Dois sentados na cama, em frente à televisão.
Ela (zapeando canais): Nossa... não tem nada na TV!
Ele: Noite de domingo... a essa hora... A gente devia estar dormindo também, né.
Ela: Que horas são?
Ele: Quase 1 da manhã.
Ela: Então já é segunda.
Ele: Ahn?
Ela: Já é segunda-feira, já passou da meia-noite.
Ele: E daí?
Ela: E daí que você disse "noite de domingo", quando na verdade, nós estamos vendo TV numa madrugada de segunda-feira.
Ele: Luiza, você sabe que essa é uma qualidade sua que todo mundo odeia, não sabe?
Ela: Que qualidade?
Ele: Qualidade, não. Grande defeito.
Ela: Que defeito? Eu tenho defeitos?
Ele (irônico): Poooooorra... agora eu vou ter que ficar olhando no relógio pra ver se já passou da meia-noite, pois se eu quiser um dia, na minha vida, manifestar uma idéia de tempo no meu relato, no que consta dias, horas e minutos, não poderei jamais me dar ao luxo de errar o dia da semana. Se é uma noite de quarta ou uma madrugada de quinta? Ó Lorde cósmico, me diga!
Ela: Madrugada de quinta, é essa aqui... ficar discutindo com um "zero à esquerda" que nem você... madrugada de quinta categoria.
Ele: Taí, outro defeito seu. Esses trocadilhos ridículos.
Ela: ...
Ele: Sem contar essas expressões da Era Clássica. "Zero à esquerda", "Tá tudo jóia".
Ela: Eu falo "tá tudo jóia"?
Ele: Fala.
Ela: César, seu...
Ele (interrompe): E sem contar aquela risadinha sem graça que você faz quando encontra alguém que não gosta, na rua.
Ela: Que risada?
Ele: Aquele sorrisinho sem graça que vem depois do "tudo bem?".
Ela: Como é?
Ele: Você fala "Oi. Nossa... Tudo bem?" e depois estica os lábios, meio Coringa. Sabe o Coringa do Batman?... Estica os lábios e faz um barulho que, pra mim, mais parece um arroto pra dentro.
Ela: Quer saber de uma coisa, César?
Ele: O quê?
Ela (se vira de costas pra ele): Vá tomar no seu cú.
Ele: Outro defeito seu. Não consegue sair de uma discussão, na qual estar perdendo, sem mandar a outra pessoa praquele lugar, ou tomar naquele lugar, ou colocar o pinto...
Ela (vira pra ele de novo): César!!
Ele (interrompe): Não, tudo bem. Desculpe, se eu te "enchi as paçocas", tá, meu bem?
Ela: Ah, vá a merda.
Ele: Não disse.
Eles chegam de um jantar na casa de uns amigos. Ele tira o sapato e deita na cama. Ela senta do lado dele.
Ele: Pô, festão, hein... nossa...
Ela: Nem me fale. Quanta comida.
Ele: E quanta bebida!
Ela: Nem me fale.
Ele (fica olhando pra ela): ...
Ela: ...
Ele: Que foi?
Ela: Nada. Tô meio estranha.
Ele: Estranha?!
Ela: É. Tô passando meio mal. Sei lá. Sabe quando você se sente meio estufado? Um desconforto estomacal? A barriga cheia, fica meio rosnando... sabe? Tô meio assim.
Ele: Ai, eu também, amor, tô com uma vontade de peidar que você não tem idéia.
Quinta-feira. Vinte e duas horas e trinta e seis minutos. Leitura pré-sono. Dois sentados na cama em frente a seus respectivos livros.
Ele larga o livro e olha pra ela. Ela concentrada.
Ele: ...
Ela: ...
Ele (esticando os braços e espreguiçando): ...
Ela: ...
Ele: Então...
Ela (sem desviar o olhar): Hum...
Ele: Tá animada pra Copa?
Ela: César, a gente não precisa ficar conversando o tempo todo.
Ele: Ah, tá.
Quinta-feira. Vinte e duas horas e trinta e sete minutos. Ele apaga a luz e vira para dormir. Ela acende o abajur, porque ainda não acabou de ler o capítulo 16 de Harry Potter e a Ordem da Fênix®.